A Dona da Mata

Image

Era dia de caçar na mata de Dois Irmãos. José e Pedro saíram logo cedo de casa, pouco tempo depois de o sol ter nascido. Os dois amigos, então com 15 anos cada, iam se aventurar sozinhos pela primeira vez naquele bosque. Isso tudo, sem o conhecimento e consentimento dos pais.

Pedro aproveitou que seu pai estava viajando ao interior, naquele final de semana, e pegou suas duas espingardas e suas bolsas de couro. José ficou esperando o amigo chegar, perto da entrada da mata. Era manhã cedo e não havia movimento naquelas bandas. Pedro não demorou a chegar. Como havia planejado tudo no dia anterior, foi só acordar pegar as coisas e sair ao encontro do seu comparsa.

Os dois nunca tinham ido caçar, mas já haviam aprendido a usar as espingardas atirando em passarinhos no quintal de casa. Mas na mata era proibido para eles. Muitas eram as histórias. De bandidos que roubavam as pessoas, de homens do saco que carregavam meninos, até causos de assombrações.

Enfim, quase nunca eles iam lá. Pelo menos não mata adentro. Mas vontade nunca faltou. Os dois sempre quiseram conhecer os segredos do bosque e nenhum dos dois tinha medo de qualquer história que já havia sido contada. Eles não eram mais crianças, diziam para sim mesmos.

Foram caminhando por dentro da mata sem parar um minuto. Chegaram até a beira do rio, onde havia várias pegadas de capivara. José analisou o rastro como se fosse um caçador experiente e viu para onde ele, supostamente, levava, pois nem ele tinha certeza de que sabia ler rastros de bichos. Mesmo assim, queria arriscar, e quando procurou o amigo, notou Pedro sentado ao pé de uma árvore.

Ele depositava no chão, um pouco de fumo de rolo.

– O que você está fazendo? – perguntou José.

– É um presente para a caboclinha. Para ela deixar a gente caçar e não nos bater.

– Isso é mentira, rapaz. Dizem isso para a gente não entrar na mata.

– Não é mentira. Meu pai faz isso toda vez que vem caçar. Ele sempre me disse. Minha mãe é quem vai na feira comprar o fumo. Agora, pegue isso – disse Pedro, tirando uma garrafa de aguardente de dentro da bolsa de couro.

– Isso é cana? – perguntou José.

– Sim. É seu presente. Coloque junto do fumo.

Apesar de José ser um bom amigo, Pedro não gostava de algumas atitudes dele. Por exemplo, ele sempre queria estar certo e ser mais esperto do que os outros. E naquele dia, ele teve mais uma de suas atitudes estúpidas. Ele destampou a garrafa, deu um gole na aguardente e sacudiu a garrafa dentro do rio.

Por conhecer o amigo, Pedro sabia que ele podia fazer alguma besteira, mas não algo tão sério como ofender a caboclinha. Ele não repreendeu o amigo em nenhum momento, apenas avisou:

– Você vai se arrepender.

José riu e disse que eles deveriam ir atrás das capivaras antes que os fantasmas as pegassem antes. Pedro contou que a caboclinha realmente existia. Essa história não era invenção. Falou que de vez em quando, os cavalos do velho Antonio apareciam com os cabelos e os pêlos do rabo todos trançados. E era obra da caboclinha. José apenas sorriu e disse, mais uma vez, que era bobagem.

Os dois seguiram para dentro da mata. Pedro ia na frente, mas José tomou a dianteira dizendo que ele é quem sabia onde estavam as capivaras. Pedro, mais uma vez, não disse nada e deixou o amigo fazer o que quisesse.

Em um determinado momento da jornada, os mosquitos começaram a atacar. José parou de repente e começou a coçar as canelas. Chamava um monte de palavrões e amaldiçoava os insetos. Depois de se coçar e espantar os mosquitos abanando as mãos, ele se ergueu de novo. Mas para a sua surpresa estava sozinho e a mata havia caído em um silêncio sepulcral. A única coisa que ele ouviu foi um assovio tão perto que parecia que alguém tinha soprado junto do seu ouvido.

O menino ficou apavorado. Olhava para todos os lados, chamava pelo amigo, mas não havia nem sinal dele. De repente alguém tocou em seu ombro e ele se virou, assustado.

– Pedro, tu tava onde, rapaz? – perguntou ele, quase chorando.

– Eu tava aqui. Tu que ficou rodando aí e gritando por mim feito doido. E eu aqui do teu lado.

– Tu não tava aí, não. Não tinha ninguém.

– Sabe o que é isso? Cachaça que tu bebeu – ironizou Pedro.

Mas ele sabia o que era de verdade e nada podia fazer para ajudar seu amigo. Continuaram a caminhar, só que dessa vez com Pedro na dianteira. Até mesmo por que José já estava com medo, apesar de não ter dado o braço a torcer, ainda.

Após alguns minutos, avistaram outro pedaço de terra que ficava a margem do rio.

– Ali Pedro, tás vendo?

Havia umas dez capivaras paradas na margem. Tentando fazer o mínimo de barulho possível, eles empunharam as espingardas e foram caminhando bem devagar em direção aos bichos. Pararam há uns cinco metros de distância. Como foram bem silenciosos e estavam escondidos atrás das plantas, as capivaras nem notaram a presença deles.

Mas quando fizeram mira e se preparam para atirar, os bichos partiram em disparada para dentro do rio.

– Que foi isso? – perguntou José, com raiva. – Como é que elas fugiram?

Não fizemos barulho nenhum. Você ouviu algum barulho?

– Vamos embora, José. A gente não vai conseguir caçar é nada hoje – disse

Pedro, desapontado, já pendurando a alça da espingarda no ombro.

– Embora nada. Dá pra atirar nelas, ainda.

– Elas já estão do outro lado do rio, José. Tá longe.

– Tá não, homem. Dá pra atirar. Minha mira é boa.

E então, José correu para a beira do rio. Pedro o acompanhou só para não contrariar, pois ele sabia que a caça já havia conseguido fugir.

José, agachado na beira do rio, tentava mirar nas capivaras que já estavam acomodadas do outro lado. Pareciam que estavam lá, zombando dos dois caçadores atrapalhados.

Pedro parou junto a José e ficou olhando para ele com uma cara de reprovação. Então, de repente, José se levantou e olhou para o amigo com uma cara desconfiada.

– Ouviu isso? – perguntou ele.

– O quê?

– Isso, Pedro – perguntou de novo.

– Isso o que, homem?

– Um assovio. O mesmo que eu ouvi antes, mas dessa vez tá bem distante.

Pedro começou a caminhar para longe do amigo. Ele conhecia as histórias. Já sabia o que ia acontecer e não queria estar perto dele.

– O que foi?

– Eu disse que tu ia se arrepender, Pedro. Eu disse.

Ela parecia uma menininha, usando um vestido branco e com longas tranças no cabelo que era comprido até sua cintura. Era assim que Pedro e José a descreveram quando contaram essa história para seus filhos e netos, anos depois. Mas eles contavam aquele causo, como uma brincadeira. Só para divertir, não assustar. Mas naquela manhã, na mata de Dois Irmãos, eles sentiram medo de verdade. Principalmente José.

A caboclinha surgiu de dentro da mata com um chicote feito de talos de urtiga. Primeiro ela passou correndo e rasgou a camisa do menino. Depois parou em sua frente e começou a gritar. Era uma língua estranha, nunca falada por homem nenhum em canto nenhum do mundo. Era a fala dos seres das florestas.

José tentou correr, mas levou um chute nas pernas e caiu de bruços. Foi aí que a surra começou. A caboclinha chicoteava o menino com uma rapidez assustadora. As cipoadas eram nas costas, nas pernas, nos braços. José só conseguia proteger mesmo, o rosto.

Seu amigo nada pôde fazer. A não ser assistir, abismado, a pisa que o amigo levava. Na hora, ele estava se pelando de medo, claro. Mas depois, pensando direitinho, bem que José mereceu a surra.

Depois que saciou a vontade de bater no menino malcriado que bebeu sua aguardente, a caboclinha sumiu mata adentro, tão rápido quanto apareceu. Restou a Pedro carregar de volta para casa o amigo espancado, duas espingardas, duas bolsas, e nenhuma caça para comer.

NDE: Esse conto foi escrito originalmente para o livro Malassombramentos: os arquivos secretos d’O Recife Assombrado. Porém, a versão que acabou publicada ficou bem diferente.

Publicado em Uncategorized | Marcado com , , | Deixe um comentário

O Boneco Ladrão

Image

1

Certidão de nascimento e carteira de identidade, ele não tinha. Se ele lembrava do seu nome verdadeiro, nunca havia dito a ninguém. Era “Cabeção” e pronto. Cabeção cachaceiro. Cabeção ladrão. Cabeção. Maloqueiro do sertão tem nome simples. Nome que todo mundo lembra.

Cabeção estava sentado em uma pedra, no início da estrada que levava ao centro da cidade de Cachoeira. Havia acabado de acender um cigarro de palha, depois de chupar uma manga. Foi nessa hora que uma carroça toda colorida dobrou na estrada. Era tanta coisa pendurada que o barulho podia ser ouvido à distância. Cabeção arregalou os olhos. Achou estranho aquele carro. Nunca tinha visto coisa assim por aquelas bandas. Ficou “cismado”, como se diz.

Era uma charrete toda fechada, só com um banco na frente onde ficava o sujeito que guiava a geringonça e o seu acompanhante. O condutor da carroça gritou e o cavalo parou ao lado da pedra.

– Dia quente – disse o senhor gordo e moreno que guiava o carro. – Já cheguei em Cachoeira da Pedra? – perguntou, enquanto passava um lenço em seu imenso bigode. O garoto negro que estava ao seu lado devia ter mais ou menos treze anos e tinha uma cara de enfezado.

– Já sim, senhor – respondeu Cabeção, sem olhar para o velho. Toda a sua atenção estava voltada para os penduricalhos da carroça. Havia panelas, chaleiras, sapatos velhos, roupas e até uma corneta.

– Gostou da carroça? – indagou o velho, percebendo a curiosidade do rapaz. Só então Cabeção olhou diretamente para o velho, mas não disse nada. – Indo por aqui direto, eu chego ao centro da cidade?

– Chega sim, senhor.

– Então, nos vemos mais tarde – acenou o velho.

A carroça seguiu fazendo zoada pela estrada e desapareceu na quebrada seguinte. Cabeção não era lá muito inteligente, mas de uma coisa ele sabia. Ali dentro daquela carroça devia ter alguma coisa para roubar.

2

A carroça colorida também chamou a atenção das pessoas da cidade. O povo da feira, os guardas da praça, as moças nas janelas. As crianças enlouqueceram. Uma verdadeira procissão de meninos e meninas seguiu o carro até a frente da prefeitura. O velho desceu distribuindo balas de hortelã para todo mundo e depois caminhou até o prédio. O garoto permaneceu na carroça.

– Posso ajudar? – perguntou o guarda que fazia a segurança.

– Preciso do alvará para montar meu show – respondeu o velho, lhe entregando uma bala de hortelã.

– Segunda porta a direita – informou o guarda.

Munido da autorização, o velho mandou o garoto chato distribuir panfletos pela cidade de cachoeira.

“Teatro de Bonecos do mestre Farid – O Auto do Roubo da Pedra Sagrada”

O velho dizia se chamar Farid, dizia que era libanês, mas na verdade era de Barbalha, Ceará. Naquelas terras era bom para os negócios dizer que era do estrangeiro. E do Líbano melhor ainda, que ninguém sabia onde ficava. Em pouco tempo, só se falava do show. Não acontecia muita coisa na cidade, por isso qualquer porcaria era motivo para o povo se barbear, se perfumar e sair de casa. A prefeitura havia dado autorização para que Farid fizesse seu show na praça e depois estacionasse sua carroça atrás da igreja. Para ele, estava ótimo. A praça era grande daria para todo mundo ver o show.

3

Cabeção foi até a casa do seu melhor amigo para convidá-lo a participar do roubo da carroça colorida. O nome do amigo era Ferrolho, apelido ganho devido a sua habilidade de arrombar cadeados, trancas, fechaduras e afins. Ferrolho estava dormindo quando Cabeção bateu na sua porta.

– Fala, macho – disse ele abrindo a porta, só de cueca e bocejando.

– Coloca a roupa. Chegou um velho na cidade cheio de coisa na carroça.

– E o que é que tem?

– Ora, o que é que tem… vamos lá roubar.

– Vou me vestir.

4

Após o almoço, o ajudante mal encarado do mestre Farid havia começado a montar o palco no meio da praça de Cachoeira. As crianças, que antes seguiram a carroça, estavam todas sentadas, observando a montagem do espetáculo. A cara de enfezado do garoto ajudava a ficarem quietas e comportadas. Acostumado ao trabalho, não demorou muito para que ele terminasse o serviço. Agora era só esperar o velho para enfeitar o palco e arrumar o cenário. E trazer os bonecos, claro.

5

O velho Farid estava na casa do prefeito tomando café e comendo bolo de rolo. Assim que soube que o mestre “libanês” estava na cidade, a autoridade máxima de Cachoeira havia mandado chamar aquele velho conhecido do seu pai para uma conversa.

– É um grande prazer receber um artista da sua grandeza em nossa pequena cidade – mentiu o prefeito.

– Muito obrigado, prefeito Cosme – agradeceu Farid. – Vejo que puxou a educação do seu saudoso pai.

O prefeito colocou sua xícara em cima da mesa e fez a pergunta que estava entalada na sua garganta desde que soube que o velho estava na cidade.

– Ele está aqui? – perguntou, sussurrando. – Ele ainda está com você?

Na primeira vez em que Farid esteve em Cachoeira, e isso fazia muito tempo, o pai de Cosme era o prefeito da cidade. Naquela ocasião, o mestre dos bonecos fez um serviço a mais do que seu habitual show. Um serviço especial para o pai do atual prefeito.

– Vá ao show hoje à noite e procure por um boneco branco de roupas pretas. Eu o uso para fazer o papel do ladrão. É ele. Ainda é – respondeu o velho, antes de tomar um gole do café.

– Eu quero comprá-lo – disse o prefeito, engolindo seco. – E eu pago bem.

– E como eu fico sem meu boneco ladrão? – perguntou o velho.

– Eu dou um jeito – responsabilizou-se o prefeito.

– Sou todo ouvidos – respondeu Farid.

6

Às 6 horas da noite, o palco já estava todo montado e os bonecos posicionados atrás da cortina. Agora era só esperar a missa terminar para o povo lotar a praça.

7

O Auto do roubo da Pedra Sagrada – Prólogo

Durante muitos e muitos anos, a pedra sagrada protegia a cidade. Por conta dela, nunca tinha seca. Os rios viviam sempre cheios e as plantações sempre verdes. O sol brilhava durante o dia a as estrelas apareciam todas as noites. Foi assim, sempre. Mas um dia, o dragão desceu a montanha e roubou a pedra sagrada que ficava em um altar no centro da cidade. O monstro levou a pedra e a escondeu no fundo da sua caverna. No dia seguinte, os rios secaram e as plantações viraram pó. O céu ficou cinza e os animais fugiram. A cidade estava morrendo.

8

Apenas o início do show de bonecos do mestre Farid foi o suficiente para deixar o público ensandecido. Os bonecos pareciam ter vida própria e tinham movimentos perfeitos. Alguns comentavam que não conseguiam ver os fios pelos quais o velho os manipulavam. O velho “libanês” também narrava a história com maestria.

E o dragão? Uma enorme marionete chinesa verde com os olhos vermelhos brilhantes. O dragão sempre era o preferido da platéia. Essa era a melhor hora para arrecadar a bilheteria da noite. Enquanto os espectadores estavam embasbacados, o assistente de Farid corria por entre eles com a sacolinha. Todo mundo fazia questão de contribuir com um espetáculo tão bonito e bem feito. Cabeção e Ferrolho, mesmo pensando no golpe que iriam dar, haviam se impressionado com o auto. Não tinha entendido nada da história, mas também tinham gostado do “jacaré” dos olhos vermelhos. Se bem que os dois se animaram mais quando viram a sacola do menino cheia de moedas e notas. Até mesmo o prefeito Cosme estava encantado com o espetáculo. Mas o que ele esperava mesmo era ver o boneco ladrão.

9

O Auto do roubo da Pedra Sagrada – 1º ATO

Desesperados, os moradores só podiam recorrer a uma pessoa para recuperar a pedra sagrada. Alguém que havia sido banido da cidade há muito tempo. Há tanto tempo que ninguém mais lembrava seu nome, nem o porquê dele ter sido expulso daquele lugar. Alguém de quem o povo se referia apenas como “O Ladrão” e que morava perto da lagoa. Uma comitiva foi montada e seguiu pela estrada. Não demorou muito para que eles chegassem à casa de Ladrão.

– O que vocês querem? – perguntou ele assustado, assim que a comitiva chegou. Ele usava roupas pretas e era muito branco.

O líder do povo da cidade explicou o que havia acontecido e que precisava de um “ladrão” para recuperar a pedra sagrada. O Ladrão disse que resgataria a pedra, mas fez muitas exigências: dinheiro, comida, cavalos e voltar a morar na cidade. Os homens da comitiva recearam no início, mas depois de uma conversa entre eles, viram que não tinham opção. Um acordo foi selado e Ladrão partiu rumo à montanha.

10

O prefeito Cosme nem acompanhava mais a história. Toda sua atenção estava voltada para o Boneco Ladrão.

11

O Auto do roubo da Pedra Sagrada – 2º ATO

O povo da cidade mandou dois homens acompanhando Ladrão. O objetivo era que eles ajudassem, mas estavam era morrendo de medo do dragão. Ladrão, por outro lado, não demonstrava temer nenhum desafio que lhe surgisse. Escalava a montanha usando as suas próprias mãos, enquanto que os homens cheios de cordas e picaretas ficavam para trás.

Depois de algumas horas de subida, eles pararam em frente à caverna do bicho. Os dois homens da cidade estavam exaustos e pediram para descansar um pouco antes de encararem a fera, mas Ladrão não lhes deu ouvidos e entrou na toca do monstro, sozinho. Apenas ele e sua espada.

12

O segundo intervalo era a hora do assistente de Farid vender as guloseimas. E tome algodão doce, pipoca e pirulito de tábua. Atrás das cortinas, o velho mestre preparava o cenário e os bonecos para o próximo ato. Nessa hora, alguém bateu na carroça. Farid abriu a porta, meio desconfiado. O prefeito Cosme estava lá, parado.

– O que você quer? – perguntou o velho, enfezado.

– Eu quero vê-lo de perto. Quero vê-lo agora.

– Espere o fim do show. Suma daqui ou vou esquecer que um dia fui amigo do seu pai – gritou o dono do show e fechou a porta.

13

Ferrolho havia comprado um pacote de pipoca e ofereceu a Cabeção.

– A gente veio aqui pra roubar e não pra comer – disse ele, negando a pipoca.

– Quando a gente roubar o dinheiro deles, vou estar pegando meu dinheiro de volta – sorriu Ferrolho.

– Eita. É mesmo – concordou Cabeção, enfiando a mão no saco de papel.

14

O Auto do roubo da Pedra Sagrada – ATO FINAL

Os homens que estavam fora da caverna acenderam tochas e ficaram esperando. Havia um silêncio absurdamente estranho. Mas, de repente, uma labareda de fogo iluminou toda a entrada da caverna. Os homens recuaram assustados. Foi nessa hora que Ladrão apareceu trazendo a pedra sagrada nas mãos.

– Tome – disse ele entregando a pedra a um dos homens – leve-a para a cidade. Vou cuidar do dragão.

Os homens desceram correndo até a cidade para colocar a pedra de volta ao altar. Mas antes que o povo começasse a comemorar, o dragão surgiu no céu. E então ele pousou ao lado da pedra. Sua boca e olhos eram vermelhos e saía fumaça das suas narinas. Todos achavam que seriam incendiados ali mesmo. Mas o dragão, segundos antes de cuspir suas chamas, deitou no chão se contorcendo de dor. Foi aí que uma espada surgiu, de dentro para fora, rasgando a barriga do monstro. Ladrão surgiu todo sujo de sangue de dentro da fera. A cidade estava para sempre. Todos aplaudiram o herói.

Fecharam-se as cortinas.

15

Fim do espetáculo. História simples para todo mundo entender. O público aplaudiu de pé. Estavam encantados com os bonecos do mestre Farid. Tanto com a história como com a perfeição dos movimentos.

16

O prefeito Cosme se despediu das pessoas na praça e saiu em direção à sua casa. Seu plano já estava armado. Agora era só esperar o velho levar o boneco ladrão para ele.

17

Algumas pessoas fizeram questão de cumprimentar o velho Farid após o show. Ele distribuía sorrisos e apertos de mãos, mas não prometeu fazer um novo espetáculo no dia seguinte. Disse que iria ver. Logo em seguida, acompanhado do menino mal encarado, ele desmontou o palco, juntou tudo em sua carroça e partiu para seu merecido descanso.

18

Cabeção e Ferrolho seguiram a carroça do velho libanês até à igreja. Era costume do povo de Cachoeira dormir cedo, então todo mundo havia se recolhido naquela hora. Farid estacionou a carroça por trás da Igreja e desceu com uma mala na mão. Pelo caminho que tomou, os dois ladrões acharam que o velho havia seguido à pensão para dormir.

– A hora é essa – disse Cabeção.

– Calma – falou Ferrolho, segurando o amigo pelo braço. – Cadê o moleque? O da cara feia? Ele deve ter ficado na carroça.

Mas assim que Ferrolho disse isso, o moleque pulou da carroça e correu na mesma direção do velho, também com uma mala na mão.

– Pronto – emendou Cabeção. – Agora a barra tá limpa.

– Eu estava pensando – disse Ferrolho. – Eu acho que eles não deixam o dinheiro na carroça. Devem levar com eles.

– Bem capaz… mas deve ter algo que preste na carroça. Não custa olhar, homem de Deus. Vai desistir, é? – desafiou Cabeção.

– E a guarda municipal? Pode passar um guarda por aqui – continuou Ferrolho.

– Ah, já vi que vai amolecer. Pois eu vou sozinho, duvida? – perguntou Cabeção.

Ferrolho olhou para os lados e suspirou.

19

Uma população inteira de bonecos testemunhava a invasão. Bonecos de todos os tipos e tamanhos. Pendurado no teto estava o dragão. Um artefato chinês muito bem feito e imponente. Bonecas russas de porcelana com seus rostos brancos e seus vestidos coloridos. Bonecos simples de pano, mas costurado com técnicas apuradas e perfeccionistas. Havia um mundo dentro da carroça de Farid. Um mundo de bonecos.

O invasor remexia as caixas no chão, sem saber que aqueles olhos de vidros os observavam. Procurava o que quer que fosse, com pressa. Queria sair dali o mais rápido possível. De tão entretido que estava, não viu a movimentação nas paredes.

Pequenas coisas feitas de pano e bucha escorregavam como aranhas em teias e corriam para o escuro assim que alcançavam o chão. Cada um empunhava uma agulha com linha, como se fossem pequenas espadas.

O invasor achou uma caixa grande e estava revirando as coisas que tinha dentro. Foi quando sentiu os primeiros ataques. Em poucos segundos seu pé esquerdo estava cheio de agulhas. Ele gritou, mas não por muito tempo. Outros bonecos, dezenas, atacaram seu rosto. Alguns cravaram agulhas em sua língua e ele não conseguiu gritar mais. Então, ele caiu de costas no chão e se transformou em uma presa fácil. Agarraram suas pernas e braços. Pequenas mãos, porém fortes, como as de guerreiros. A linha era resistente como um cabo de aço. Ele não conseguia se mexer.

O dragão desceu do teto planando e pousou em seu peito. Seu bafo e as faíscas que saíam do seu nariz eram reais. Assim como os grandes olhos vermelho. Agora era o medo que não deixava o invasor esboçar reação.

A porta da carroça se abriu e Farid entrou na carruagem. O velho tirou um funil do bolso do paletó e, ajoelhando-se, o entregou a um boneco de 30 cm que usava calças xadrez e camisa de flanela.

– Retire as agulhas e enfie isso na boca dele – ordenou à pequena figura.

O dragão levantou vôo e voltou para o teto. Então, o boneco pulou sobre o peito do homem e caminhou até sua boca. O preso tentava falar algumas palavras, enquanto as agulhas eram arrancadas de sua língua e dos seus lábios, mas não conseguia dizer nada. Assim que terminou de tirar as agulhas, o boneco colocou o funil na boca do homem. Empurrou bem fundo, de modo que ele não cuspisse.

Farid pegou um pequeno frasco, agora tirado do bolso da calça, e derramou o líquido no funil. O homem engasgou um pouco, mas engoliu tudo sem reagir. Pouco tempo depois, seus olhos estavam completamente brancos.

– Sempre são os olhos que mudam primeiro – falou Farid, discursando para seu público de marionetes – Nunca entendi, por que – confessou, enquanto se levantava.

Os bonecos começaram a voltar para suas posições de origem. Farid chamou seu assistente, que esperava do lado de fora da carroça. O garoto entrou correndo e começou a despir o homem. Assim que terminou, o rapaz puxou uma faca e abriu um enorme corte na barriga do invasor. O corpo nu começou a encolher. Sua pele empalideceu e amoleceu, seu cabelo engrossou e o sangue escorregou todo para fora do corpo em uma velocidade incrível, como se estivesse sendo drenado.

No fim, Farid caminhou pela poça de sangue e pegou em suas mãos a pequena figura que havia sido um homem, poucos minutos atrás. Havia um novo boneco dentro da carroça.

– Agora é só lavar e costurar, e meu novo boneco ladrão estará novo em folha – disse o velho.

Alguns passos foram ouvidos do lado de fora. Farid e seu assistente correram para olhar, mas não viram nada nem ninguém. Os dois arrumaram suas coisas e partiram com a carroça colorida, deixando a cidade de Cachoeira para trás.

20

Sentado na poltrona da sua sala de estar, o prefeito Cosme observava o boneco que havia acabado de comprar. Ele cresceu ouvindo falar dele, mas seu nome verdadeiro era proibido de ser pronunciado naquela casa. Era uma afronta à memória do seu pai.

Farid fez um bom serviço para o pai de Cosme, transformando seu maior inimigo em um boneco. Não havia um corpo que precisasse ser ocultado. Era o crime perfeito.

A marionete estava inerte, deitada em cima de uma pequena mesa. Cosme falava, mas ele não respondia. Só obedecia ao comando do velho Farid e de mais ninguém.

Mas não foi para fazê-lo se mexer que o prefeito havia pago, nem mandado o segurança da prefeitura invadir a carroça do velho bruxo, indo de encontro à morte certa. “Entre na carroça e procure por uma caixa. Você será recompensado”, mentiu o prefeito para o guarda.

O prefeito Cosme queria tomar parte na vingança de seu pai. Ele se levantou e foi até a cozinha. Quando voltou, trazia uma garrafa de álcool e uma caixa de fósforos em suas mãos.

21

Depois de desistir de roubar a carroça, Ferrolho foi para a casa. Quando estava quase pegando no sono, ouviu alguém bater desesperadamente na porta do seu barraco. Quando abriu, deu de cara com cabeção. Ele estava pálido e esbaforido.

– Ferrolho… quase que eu virou boneco – confessou, antes de desmaiar.

 

Publicado em Uncategorized | Marcado com | 1 Comentário

LIVRO: O OCEANO NO FIM DO CAMINHO (2013)

LIVRO: O OCEANO NO FIM DO CAMINHO (2013).

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Filmes, filmes, filmes

Para movimentar um pouco o Infernorama, posto aqui os links para as críticas de filmes que escrevi no blog do Toca o Terror. Tem textos sobre produções dos EUA, Sérvia, Cuba e Suíça.

O Inimigo (Sérvia, 2011)

http://blogtocaoterror.wordpress.com/2013/06/27/resenha-o-inimigo-2011/

V/H/S (EUA, 2012)

http://blogtocaoterror.wordpress.com/2013/06/11/resenha-vhs-2012/

Juan de Los Muertos (Cuba, 2012)

http://blogtocaoterror.wordpress.com/2013/05/17/filme-juan-de-los-muertos-2012/

The Lords of Salem (EUA, 2013)

http://blogtocaoterror.wordpress.com/2013/05/14/resenha-the-lords-of-salem-2013/

Sennentuntschi (Suiça, 2010)

http://blogtocaoterror.wordpress.com/2013/07/09/resenha-sennentuntschi-2010/

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Havia um monstro embaixo da cama

b061141b42d0797f3f3ced36f41a37df

Havia um monstro embaixo da cama. Havia um monstro embaixo da cama todas as noites. Havia um monstro embaixo da cama todas as noites, desde quando Miguel se mudara para aquela casa. Havia um monstro embaixo da cama sempre. E quase nunca era o mesmo monstro.

A casa nova para qual o pequeno Miguel, de apenas 8 anos havia se mudado, a três meses, ficava exatamente em cima de um portal para uma outra dimensão. E a abertura desse portal em questão ficava localizada bem embaixo da sua cama. Uma infeliz coincidência.

Por quê? Porque sempre que dizia para alguém que “havia um monstro embaixo da sua cama”, o máximo que conseguia arrancar das pessoas eram risadas. Além de desacreditado, Miguel ficava com fama de pouco criativo, pois caia em um velho clichê.

Sempre que ele se preparava para dormir, olhava embaixo da cama. e lá estavam eles. Só dava para ver a cabeça, saindo de um buraco de onde também vinha uma luz amarela. De vez em quando, aparecia um que ele já conhecia, mas na maioria das vezes era uma cara nova.

Alguns sorriam, hora com bocas gigantescas, hora com bocas pequenas, hora com dentes enormes, hora com dentes pequenos, hora sem dentes nenhum. Às vezes até sem boca, mas dava para perceber que estavam sorrindo.

Mas havia os que não eram tão simpáticos. Alguns urravam, outros gruninham, uns guinchavam, outros tantos sibilavam. Miguel não gostava desses, mas também não tinha medo. Com o passar do tempo, ele percebeu que os monstros não podiam sair de debaixo da sua cama. Eles só poderiam colocar suas cabeças no buraco. Pequenos, grandes, velhos, novos, machos, fêmeas. De todos os tipos, idades e sexos.

Miguel resolveu desenhar os monstros para, digamos, catalogá-los. Ele também decidiu que seria bom lhes dar nomes. O com pelo azul, e chifres de bode e boca pequena, foi batizado de Gorgón. O careca, com apenas um olho e boca desdentada foi chamado de Ruckzóide. Ele inventava nomes como ninguém.

Depois de um tempo, ele havia desenhado monstros em um caderno inteiro. A cada dia seus desenhos ficavam mais e mais detalhistas. Seu pai lhe perguntou certa vez de onde ele tirava aquelas figuras, mas ele não falou mais sobre o buraco. Não queria que ninguém mais desse risadas.

Os monstros surgiam mais e mais. Só durante a noite. De dia, o buraco ficava fechado.

Certo dia, o pai de Miguel disse que eles iriam se mudar. Miguel já tinha 10 anos e sua coleção de monstro já era gigantesca.

Naquele mesma noite, ele olhou para debaixo da cama, como fez sempre nos últimos dois anos. Não havia monstro nenhum naquela vez. Mas o buraco estava lá, emanando sua luz amarela.

Miguel não controlou a curiosidade. Ele se arrastou pelo chão e olhou pelo buraco. Havia uma escada que ia até o chão. Lá embaixo estava um pequeno monstrinho parecido com uma lagartixa vermelha ao lado de um monstro mais velho, que lembrava um javali, e que se apoiava em uma bengala. Ao redor, havia várias tendas como um parque de diversões.

O monstrinho entregou uma moeda ao monstro idoso, passou pela corrente e foi caminhando até a escada. Miguel se esgueirou rapidamente de volta para sua cama. Alguns segundos depois, ouviu um barulho e olhou para o buraco. Lá estava a pequena lagartixa vermelha com os olhos arregalados. Miguel sorriu, mas ele não sorriu de volta. Parecia ter ser assustado e sumiu para dentro do buraco.

Miguel escorregou para debaixo da cama mais uma vez e olhou de novo para baixo. O monstrinho estava caído no chão, próximo à escada. Ao lado dele uma lagartixa vermelha, mais velha e usando vestido, discutia com o javali de bengala.

De repente, ela olhou para cima e gritou ao ver Miguel. Pegou o monstrinho nos braços e saiu correndo em disparada. O velho javali também correu, bem mais lento, amparado pela bengala.

Ao lado da corrente, Miguel conseguiu ler a uma placa onde estava escrito: “Venham ver. Menino monstro. apenas uma apresentação por noite. preço: uma moeda”. Miguel voltou para dentro do seu quarto e o buraco nunca mais abriu.

Publicado em Uncategorized | 3 Comentários

Conto – Encontro com o adversário

Esse conto é baseado em uma antiga lenda do Recife, onde se dizia que certo “barão” se encontrava de tempos em tempos com o próprio demônio como forma de pagar uma dívida. A história faria parte do livro “Malassombramentos: Os Arquivos Secretos d’O Recife Assombrado”, mas ficou de fora por falta de espaço.

 

Encontro com o adversário

 

Naquela noite de sexta-feira, o barão estava dando uma festa em seu casarão do centro do Recife para comemorar o noivado do filho. A noiva era a filha de um renomado médico da capital pernambucana, por esse motivo havia tantas pessoas ricas e importantes presentes na ocasião.

Como bom anfitrião, o barão cumprimentava as pessoas e circulava por todas as rodas de conversa. O sorriso farto em seu rosto era algo aparentemente impossível de se apagar. Parecia que sua alegria iria durar para sempre. Mas quando o futuro sogro do seu filho, o convidou para fumar um charuto na varanda sua sorte mudou.

Assim que riscou o fósforo, ele viu a mensagem embutida na labareda. Uma ordem criptografada em fogo. Um chamado que vinha direto do inferno não podia ser impresso em outra coisa. Através da chama, o velho barão soube que era chamado para cumprir sua sina. E enfim, o sorriso farto desapareceu de seu rosto.

Despediu-se do amigo, desculpando-se por estar um pouco indisposto e que pediria para alguma das criadas lhe servir um chá. Tentando não chamar a atenção, principalmente da sua esposa e de seu filho, caminhou discretamente até os fundos da casa.

Assim que abriu a porta que dava acesso ao vasto quintal, ele viu, ainda de longe, um grande cavalo negro parado ao lado de um pé de manga. Seus ossos tremeram e um suor frio começou a escorreu da sua testa. Nunca em sua vida, aquele homem havia sentido uma angústia tão grande quanto aquela. Nem no dia em que o pacto foi firmado.

No quintal também ficava o pequeno casebre onde vivia o vigia do casarão. O barão caminhou devagar para não fazer barulho, pois ele presumiu que a mulher do seu empregado estava acordada, afinal estava ouvindo o choro do filho recém-nascido do casal.

Ao chegar perto do cavalo ele notou que além de seu pêlo ser totalmente preto, o bicho também estava completamente coberto de uma gosma da mesma cor, inclusive sua crina e seu rabo. Seus olhos eram duas bolas amarelas. O animal também soprava fumaça quando respirava. As cinzas saiam pela sua boca e narinas como se fosse uma lareira. De repente ele relinchou, e além de emitir um som estridente e pavoroso, deixou a mostra dentes afiados como o de um cachorro.

Assim que o bicho se curvou um pouco, o barão entendeu que estava na hora de subir naquela maldita montaria. Então ele montou e segurou em sua crina. Nesse instante, o cavalo partiu em disparada, pulou a cerca do quintal e se embrenhou pela mata que ficava atrás do casarão.

Durante todo o tempo em que seguia mata adentro, o barão ficou de olhos fechados. Segurando nos pêlos cobertos daquela gosma preta que fediam como alguma coisa morta. Seu medo era tanto que se lhe perguntassem quanto tempo durou aquela cavalgada ele não saberia dizer se foi um minuto ou uma hora. Quando o cavalo parou e ele desceu, ainda estava de olhos fechado e rezando.

 

– Aqui não. Sabe que eu não gosto de ouvir isso – disse uma voz rouca e áspera.

 

Só então o barão abriu os olhos. Ele estava à beira de um pequeno riacho e o homem que lhe falava estava sentando em um pedaço de tronco.

O sujeito se levantou e foi em sua direção bem devagar. Era um homem alto e forte de longos cabelos pretos, usando apenas uma calça de pano. Nada de camisa ou terno, e nem mesmo sapato. Ele caminhava descalço por cima de pedras e pedaços de madeira, mas parecia que não os sentia.

 

– Fale um daqueles nomes pelo qual vocês me chamam – pediu ele, sorrindo.

 

Ainda apavorado, o barão não conseguiu abrir a boca.

 

– Ande homem, diga. Eu conheço todos, mas gosto de ouvir vocês falando.

 

O barão tentou falar, mas só balbuciou alguma coisa de tão seca que estava sua boca. O homem insistiu para que ele repetisse, e então o velho pegou o fôlego e disse:

– Satanás.

– Eu adoro esse. Adoro – admitiu o demônio gargalhando.

 

Não se ouvia nada além da voz dele. Nenhum som de inseto e nem mesmo o barulho do riacho correndo. Enquanto o diabo fala tudo se fazia silêncio.

 

– Chegou a hora, barão. Vim cobrar o que me é de direito – disse ele, enfim.

– Meu filho se casará. Deixe-me viver mais – pediu o velho.

– Pedes mais do que eu já lhe dei. Mas tu tens algo mais a oferecer-me? Proferi a ti fortuna e luxúria por cinco anos, em troca de tua alma. Acho que não tens mais nada para me oferecer, já que a coisa mais importante em ti agora me pertence.

– Só mais alguns meses, eu imploro. Só até o casamento.

– Em troca de que, velho? O que tens para negociar? – indagou o diabo.

– Posso lhe dar outra alma. Uma pura. Uma alma sem pecado, como oferenda – falou o barão, e em seguida se ajoelhou aos pés do demônio.

 

O diabo deu um passo para trás, para evitar que o velho lhe tocasse, e então riu. O barão começou a chorar e rastejar pelo chão.

 

– Fale-me sobre essa alma que trará para mim. E então eu verei se aceito a proposta – sentenciou o demônio.

 

No casarão, todos os convidados já haviam ido embora. Restaram apenas o filho e a mulher do barão. Acompanhados dos empregados, eles percorreram toda a residência e o quintal à procura dele. Já perto do amanhecer, uma das mucamas começou a gritar chamando todos que estavam na casa.

O barão surgiu nos fundos da casa, caminhando lentamente como se estivesse exausto. E assim que seus empregados chegaram perto dele, ele desmaiou. Levado para seu quarto, foi lhe dado um banho quente e esfregaram alecrim em seu corpo. O velho não dizia uma palavra, apenas gemia como se algo lhe machucasse o corpo. Mas não havia feridas em sua pele, era como se algo lhe atacasse de dentro para fora.

Após alguns dias o barão voltou ao normal. Nunca disse nenhuma palavra sobre o acontecido no dia do noivado do filho, como também proibiu que sua família e seus servos tocassem no assunto. Mas entre a criadagem, os comentários aconteciam. Alguns empregados foram embora, com medo. Quem também demonstrou interesse em ir embora, foi o seu vigia, mas o barão lhe implorou que ficasse. Inclusive, dobrou o valor do seu salário para que ele permanecesse em seu cargo. Apesar das queixas da esposa, o vigia decidiu ficar, pois o dinheiro que iria ganhar era uma quantia muito satisfatória.

Seis meses se passaram e o filho do barão se casou. Após a cerimônia religiosa, o casarão abrigou uma grande festa com todos os convidados.

E então em meio ao banquete, o barão novamente recebeu o chamado que tanto temia. É claro que aquele estranho fenômeno só foi visto pelos olhos daquele homem amaldiçoado, pois o recado era exclusivo para ele. De repente a parede branca da sala de jantar foi atacada por uma tinta vermelha e, como se fora pintada por um pincel invisível, a palavra “inferno” surgiu escrita. Era assim, que mais uma vez, o príncipe das trevas o convocava para um encontro em particular. Após aquela visão aterradora, o barão entendeu que era chegada a hora de uma nova conversa e saiu sem ser notado.

A festa prosseguiu, mesmo com a ausência do dono da casa. A alegria do casal recém casado era imensa e todos os convidados compartilhavam daquele momento agradável. Ainda mais quando a comida e a bebida eram fartas como naquela noite. Mas de uma hora para a outra, a harmonia daquela celebração foi posta a baixo por um grito de desespero.

A esposa do vigia invadiu a sala de jantar aos berros. Sua histeria era tanta que ela arrancava tufos de seus próprios cabelos com as mãos. Apesar dos apelos dos homens que correram em seu socorro, ela não conseguia falar nada. Apenas gritava e chorava desesperadamente.

O filho do barão resolveu correr até o quintal e olhar o casebre onde a mulher morava. Assim que chegou, deu de cara com uma cena grotesca. O vigia jazia na cama do casal com um enorme punhal enfiado no peito. O sangue que escorria era tanto que chegou a ensopar todo o lençol. Ao lado da cama, havia um berço vazio.

Nauseado o jovem saiu do casebre a procura de ar puro. E foi justamente nessa hora que ele teve uma visão que ficaria na sua cabeça por muito tempo. Seu pai cruzava o quintal montado em um enorme cavalo negro que corria em uma velocidade tão absurda que parecia mais uma enorme ave fazendo um vôo rasante. E após pular a cera, o animal desapareceu noite adentro.

Logo em seguida chegaram dois empregados da casa. As ordens do jovem foram explícitas. Que levassem a mulher para um lugar onde ninguém pudesse vê-la e que fechassem a porta do casebre com correntes.

Na beira do mesmo riacho de antes, o demônio esperava pelo velho. O barão desceu do cavalo trazendo nos braços a criança, que chorava sem parar. O diabo se aproximou com um sorriso no rosto. Um sorriso que parecia mais uma ferida aberta.

– Uma alma pura por mais seis meses de vida. Acho que valeu a pena – disse ele.

– Que Deus me perdoe – balbuciou o barão, já em lágrimas.

– É tarde, velho. É comigo que tratas, agora – replicou o diabo.

E então tomou a criança em seus braços e saiu caminhando rumo ao riacho.

– Aguarde. Vou chamar-lhe de novo. E espero um novo presente – sentenciou ele, antes de desaparecer nas águas.

 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Cruz do Patrão

Versão original do conto que eu escrevi para o livro “Malassombramentos: os arquivos secretos d’O Recife Assombrado”.

 

Foto: Pedro Valadares

 

 

Na Cruz do Patrão

A luz da lua cheia iluminava o enorme homem negro parado em frente à coluna. Ele era alto e forte, e sua pele muito escura. Aquele foi o primeiro a aparecer. Depois, pouco a pouco, outros mais foram surgindo. A cada piscar de olhos, uma nova figura chegava. Uma multidão começou a surgir do nada. Homens, mulheres e crianças. Todos nus e tão escuros quanto sombras.

O nome do menino era José. Ele tremia de medo e não conseguia se mexer. E ali, naquele lugar ermo, em uma noite de lua cheia, os fantasmas de um passado muito distante vinham se mostrar. Ele estava bem próximo da coluna onde ficava a cruz. E entre o garoto e a antiga construção estava um exército de almas de outro mundo.

As assombrações não faziam som algum. Os gritos que ele ouvia, naquele momento, eram dos seus amigos que estavam bem atrás dele. José não conseguia entender o que os meninos gritavam. Toda a sua atenção estava voltada para as figuras negras que formavam uma verdadeira barreira na sua frente. E, aterrorizado, ele não conseguia sair do lugar.

Algumas horas atrás, um pouco antes de escurecer, ele e mais três amigos estavam no bairro do Recife tomando banho na maré. Foi quando um deles propôs uma aposta. Quem teria coragem de ir até depois do porto e tocar na Cruz do Patrão. Os outros, assim como aquele que fez o desafio, morriam de medo da Cruz. Mas José sempre gostou de se amostrar. Ele bateu no peito e disse que topava o desafio. O feito, se alcançado, lhe renderia 10 bolas de gude, um badoque e um peão, todos de propriedade dos outros meninos. Caso José não conseguisse tocar na cruz, dividiria suas coleção de pipas com os demais.

Assim resolvidos, os quatro amigos caminharam em direção ao porto do Recife. Para burlar a segurança, aproveitaram a maré seca e foram por dentro do mangue. Era o modo mais seguro de entrar no porto sem ser visto pelos vigias. O caminho não era tão longo, mas por dentro da lama eles levaram mais tempo do que o normal. Sendo assim, já estava completamente escuro quando alcançaram o local onde estava a antiga coluna. No topo dela, ficava a cruz do patrão, que há muito tempo atrás servia de baliza para os navios que entravam no porto.

Mas não era essa história que transformava aquela construção e aquele lugar em algo aterrorizante. Não a cruz, por si só. Não ela, lá parada, imóvel, resistente ao tempo. O que havia sido feito perto dela, por homens tão cruéis como o próprio demônio, era o que trazia maldição àquele sítio.

O mau agouro começou nos tempos dos escravos. Os negros que morriam nos navios eram enterrados bem ali. Nada de cemitério ou enterro cristão para os pagãos, considerados selvagens pelos brancos. Mas mesmo sem batismo, eles tinham almas. E seus espíritos, assim como seus restos mortais, ficavam ali para sempre.,

Depois vieram mais histórias. Mortes misteriosas, homens brutalmente assassinados, uns pelos braços da lei, outros pelos marginais que rondavam aquela área deserta da cidade. Era um chão manchado de sangue aquele. Um chão onde ninguém descansava em paz.

Também havia ali, o encontro dos que faziam catimbó. Pais e avós diziam para as crianças ficarem longe daquele povo. Aquilo não era coisa de gente clemente a Deus. Diziam que o povo da macumba matava galinha e bode para dar de comer ao diabo e que um dia ele apareceu de verdade. Soltando enxofre, ele correu atrás de uma negra do toutiço gordo e sumiu com ela para dentro da água.

Por tudo isso, dito há várias gerações, eram poucos aqueles que se atreviam a ir ali durante a noite. E alguns, inclusive,morriam de medo até durante o dia. Mas lá estava José, disposto a caminhar até a cruz e provar que tinha mais coragem do que qualquer garoto, e mais até do que alguns homens feitos e com barba na cara.

Os outros três pararam próximo a uma fileira de pedras e disseram que de lá não passariam. José teria que seguir sozinho a partir daquele local. O menino então suspendeu as calças, prendeu a respiração e caminhou a passos largos rumo ao seu destino.

Sua pisada era forte e suas passadas rápidas. Estava com medo, bem verdade, mas repetia em sua mente que não havia fantasma, nem qualquer alma do outro mundo por ali. Foi quando de repente a figura negra apareceu. Primeiro era um vulto em meio à escuridão, depois tomou forma de homem em frente ao menino.

Então, os outros foram surgindo. Alguns tinham marcas pelo corpo, marcas de feridas, e manchas de sangue. Cada um possuía alguma, diferente uma das outras. Mas uma coisa os tornava parecidos. Todos os rostos, inclusive os das mulheres e os das crianças, eram tristonhos. “Não havia sorrisos no além”, pensou José.

Enquanto observava os detalhes daquela visagem, o menino foi se acalmando. Ele notou que não havia nenhum sentimento ameaçador ali. Apesar da visão fantasmagórica, uma sensação de paz se fazia presente. Em nenhum momento, as assombrações ameaçavam correr a trás dele.

Os outros garotos continuavam a gritar, mas José não conseguia entender o que eles diziam, nem por que suas vozes pareciam tão distantes. Ele sabia que seus amigos estavam próximos, mas era como se o som viesse de um lugar muito, muito além. Como se ali, onde José estivesse com os fantasmas, fosse um outro local longe de tudo.

De repente, os gritos cessaram. Então, o menino olhou para trás e viu seus amigos correndo em disparada. Todos eles partiram em direção ao mangue e se jogaram dentro da lama. Parecia que eles estavam fugindo de algo assustador. Quando José se deu conta, uma mão segurava seu braço.

Para surpresa dele, não era nenhum dos fantasmas. Era um dos homens que tomavam conta do porto. Um sujeito já velho e com boa parte dos dentes podres. Pelo hálito fedorento, José percebeu que ele estava bêbado e, então, tentou se soltar aproveitando a condição do homem. Mas mesmo embriagado e velho, ele era forte. E com um empurrão, jogou José no chão.

Assim que o menino caiu, o homem puxou seu cinto. Disse que bateria nele até ele sangrar, pois só assim não voltaria jamais ao porto. José pôs as mãos para cima, a fim de proteger o rosto das chicotadas. Mas algo aconteceu, nesse instante. Uma ventania começou a soprar. E junto com o vento, vieram todos os fantasmas na direção do agressor. Eles gritavam e falavam em línguas estranhas, que José não conseguia entender.

Nem deu tempo de o homem olhar para trás. O vento o atingiu nas costas e o ergueu a poucos metros do chão. Vários braços negros o suspenderam no ar como uma folha. O homem não reagiu, nem gritou, estava imóvel. Então as assombrações desapareceram como fumaça, e o seu corpo despencou. Ele aparentemente já estava desacordado antes de cair, e assim permaneceu depois de bater no chão.

José não sabia o que lhe tinha dado mais medo, se a surra que estava para levar ou os fantasmas. Mas se tinha uma coisa que ele sabia era que precisava ir embora dali o mais rápido possível. Só que antes de ir embora, ele cumpriu a promessa. Caminhou até onde disse que iria e tocou na cruz do patrão.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário