Folke Filbyter

monstro

Mauro Rossiter

O frio era intenso, a neve profunda e a escuridão opressora. Naquela região pessoas normais não viviam. Apenas uma choupana se erguia no ermo gelado, exalando uma pequena fumaça de um buraco no teto. Folke morava sozinho ali. Era uma criatura medonha, corcunda, forte, careca e com orelhas levemente pontudas. Não fossem as sobrancelhas espessas poderiam dizer que ele tinha alopecia. Chamavam-no Filbyter, ou “aquele que castra cavalos com os dentes”. Havia participado de explorações e incursões com o povo viking, mas isso era passado. Vivia amargurado, com o peso de ter cometido atrocidades e desprezado o filho. Os dias se repetiam, todos iguais. Ele acordava cedo, comia o que houvesse e saía para caçar. Nem sempre voltava com alguma coisa. Cortava árvores com um único golpe de machado para fazer lenha e só. A vida um vazio sem sentido. Folke, que era filho de uma anã, havia gerado um filho com uma fêmea de troll. Depois de expulsá-los e do arrependimento pelo ato, não ouvira mais falar deles. Foi quando soube por alguém do vilarejo próximo que seu filho tinha se casado e gerado uma criança. O menino era órfão e não se sabia seu paradeiro. Filbyter então resolveu sair em busca da criança perdida. Montado em seu cavalo, iniciou a procura no norte da Escandinávia.

Na parte mais gelada da região, Folke gastou 19 dias apenas avistando neve e gelo. Nem sombra de vida dava a esperança de encontrar alguém naquele fim de mundo. Ele e a montaria se alimentavam das parcas provisões levadas consigo (o cavalo tinha mais sorte com a vegetação escassa que surgia por vezes). No vigésimo dia, ele percebeu uma movimentação perto a uma floresta de pinheiros. Correu com o cavalo e conseguiu ver o que era, mas sem acreditar no que enxergava. Quatro trolls gigantescos caminhavam tranquilamente por entre as árvores, porém sem fazer qualquer barulho. Dois deles tinham cerca de três metros de altura e não carregavam armas, apenas pedaços de alce para se alimentarem. Os dois restantes tinham aproximadamente quatro metros e levavam clavas nos ombros peludos. Eram criaturas horrendas, com narizes enormes e pontudos, dentes podres e olhos amarelados. O corcunda decidiu interrogá-los, uma vez que sabia seu idioma.

– Hej, criaturas da floresta! Me chamo Folke e procuro uma criança. O que têm para me dizer?

Um dos maiores respondeu:

– Criança humana? Humm. Faz tempo que não comemos uma, ser diminuto. Aliás, há algum tempo que não comemos carne humana. Você apareceu em hora certa!

Nesse momento, Folke tentou dar a volta e fugir cavalgando, mas o animal se assustara com a voz do monstro e empinou as patas dianteiras, levando-o ao chão. Não tinha alternativa a não ser enfrentar os trolls. O que havia respondido já agitava a clava e corria em direção a Folke, que sacou uma pequena faca do cinto e atirou com precisão no olho direito da criatura. Em agonia, o ser gigantesco deixou a clava cair e pôs as mãos no rosto. O segundo troll partiu para cima dele. Teve tempo apenas de se esgueirar por entre os pinheiros, evitando os golpes de clava. Numa oportunidade deixada pela criatura, Folke correu por trás do monstro com o machado nas mãos e cortou o tendão do pé esquerdo com um único golpe, fazendo o segundo cair gritando. Assim que o gigante ruiu, o Filbyter decepou sua cabeça, enquanto os dois trolls menores apenas olhavam horrorizados e sem ação. Correu até o primeiro gigante caído, ferido em um dos olhos, para usar novamente o machado ensanguentado. Depois olhou para os trolls restantes.

– E vocês? Querem o mesmo destino? Se não podem me dar a informação que preciso, deixem o alimento no chão e partam agora!

As criaturas não desobedeceram. Folke pegou os pedaços de alce e os arrastou até encontrar seu cavalo distante na neve. Tinha alimento para alguns dias, mas não estava feliz.

Após esse encontro infrutífero (exceto pela comida), o corcunda percorreu mais algumas paragens do extremo norte, contemplando auroras boreais na região da Lapônia, vislumbrando réstias de duendes por entre os arbustos, mas sem ter pistas do neto. Durante o percurso seu cavalo falecera, exaurido pelo esforço. Não morreu em vão; o alimentou por algum tempo. Decidiu, então, ir à costa para tentar um lugar em alguma embarcação que estivesse se dirigindo mais a leste, onde atualmente está a Rússia e os demais países europeus e asiáticos daquela área. Conseguiu se encaixar no navio “Stora Lejon”, ou Grande Leão, nau de madeira que trabalhava com pesca de baleias. Ele dissera ao capitão do barco que poderia ser útil no serviço enquanto durasse a travessia. E confirmou o que havia dito. No final da primeira semana, Folke fora o responsável por içar, sozinho, uma baleia de médio porte ao convés do navio. Os demais marinheiros demoraram a crer no que viam e alguns se afastavam fazendo orações e lançando pragas ao corcunda. Nada, porém, com o que ele já não fosse acostumado.

Ao cabo de dois meses no mar, a embarcação atracou na costa, numa cidade portuária onde hoje fica Tallinn, na Estônia. Folke teve uma certa dificuldade para iniciar a busca e conseguir informações, mas com um pouco de violência e ameaças definiu um trajeto para um possível paradeiro da criança. De onde estava, seguiu viagem sem grandes atropelos até alcançar um local que viria a ser chamado no futuro de São Petersburgo, percorrendo cerca de 360 km andando. A cidade era a maior que ele já havia visto, moderna e organizada. Por isso, todos o olhavam como se estivessem admirando uma criatura fantástica, de contos folclóricos. Folke havia juntado uma quantia de dinheiro enquanto trabalhava no navio baleeiro e pôde se instalar numa espécie de pensão nos arredores do município.

No dia seguinte continuou a investigar perguntando aos moradores do local sobre um menino de origem escandinava, dando os poucos detalhes que possuía. Naquela noite, um incêndio criminoso foi iniciado na pensão onde o corcunda estava instalado. Um ladrão ateou fogo próximo ao estábulo para, na confusão, roubar alguns cavalos. Como deu errado – o fogo tomou outra direção e atingiu a pensão – e não acharam o verdadeiro culpado, responsabilizaram Folke Filbyter, por ser estrangeiro e monstruoso. Na tentativa de se explicar e se defender ao mesmo tempo, matou quatro pessoas com as mãos e saiu correndo do local. Uma caçada pelas ruas da cidade foi organizada e várias pessoas procuravam pelo corcunda assassino. A essa altura, a notícia tinha se espalhado e todos que estavam no encalço de Folke queriam se tornar heróis. Quando ele entrou em um beco escuro, esbarrou com um jovem recém-saído da adolescência. Folke o olhou dentro dos olhos e sentiu que sua busca havia terminado. Era idêntico a seu filho abandonado e negligenciado. Tinha perdido a noção do tempo e achava que o neto ainda era uma criança. O jovem assustado ouvia gritos e algazarra nas ruas e identificou que o ser em seus braços era a maldita criatura assassina que estavam procurando. Sem dar espaço para qualquer reação, o jovem esfaqueou Folke uma, duas, oito vezes, antes de soltá-lo. Filbyter olhou novamente nos olhos do jovem, com lágrimas no rosto e disse “sou seu avô, pai do seu pai. Cometi muitos erros na vida e vim atrás de você para pedir perdão e me redimir com meu sangue”. O jovem ficou surpreso e não disse nada, as palavras não saíam de sua boca. Folke Filbyter o encarou pela última vez e sumiu de sua frente, fugindo para um local ermo e desconhecido.

Uma lenda escandinava diz que Folke Filbyter é visto em algumas noites escuras de inverno, enlouquecido, cavalgando um cavalo castrado com seus próprios dentes enquanto procura pelo neto desaparecido. Às vezes ele carrega crianças solitárias, pensando ser o filho de seu filho abandonado.

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2 respostas para Folke Filbyter

  1. Folke Filbyter letra A dos Testes de Macho

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