Quase toda sexta-feira

boteco

 

Na quarta ou quinta vez que o padre gritou “Sai desse corpo, que ele não te pertence”, eu perdi a paciência e aumentei o som. Na vitrola, Reginaldo Rossi pedia para alguém voltar logo, pois ele andava muito sofrido. Voltei ao balcão e pedi mais uma cerveja. Era sexta-feira. Na sexta-feira só tomo cerveja. Sábado é Whisky, e cachaça no domingo. Dia de semana não bebo.

Moacir entrou e perguntou “que barulheira era aquela”. “O padre está exorcizando a garçonete nova”, respondeu Lula detrás do balcão, enquanto abria a minha cerveja.

Margarete havia começado no serviço na noite anterior. Tudo correu muito bem, mas no segundo dia de trabalho ela começou a xingar, blasfemar, falar ao contrário, levitar e vomitar nos fregueses. Lula chamou o padre. Já fazia umas três horas que eles estavam lá no primeiro andar do bar e o demônio não saia.

Moacir sentou-se ao meu lado e pediu uma dose de Dreher.

– Essa barulheira não vai atrapalhar nossa negociação? – perguntou, preocupado.

– Acho que não – respondi, sem muita certeza.

Brenda Kauana entrou no bar, exatamente às 21h39. horário em que disse que chegaria. Nem um minuto a mais, nem um menos. Brenda, que na carteira de identidade carregava o não muito glamouroso nome de José Adalberto da Costa, chegou acompanhada de dois patifes. Um era conhecido como Jeferson Queixo de Tamanco. O outro era Tonhão Cabeça de Pica, também chamado de Minha Rola, ou Minha Chibata. Mas, para não complicar, fiquemos mesmo com Cabeça de Pica.

Os três sentaram-se na mesa mais afastada da porta, de costas para a parede, e ficaram nos esperando. Eu e Moacir nos levantamos.

– Som alto do caralho. Não tem como abaixar essa porra? – pediu Brenda, com uma delicadeza que lhe era peculiar.

Passei pela vitrola e diminuí o volume. Lá em cima, o padre gritava e a cama tremia. Os três olharam para o teto.

– E essa, agora? – perguntou Queixo de Tamanco.

– O produto – acabei de imediato com uma nova reclamação. – Trouxeram?

Brenda Kauana era só um travesti que fazia ponto na praça do Diário. Nunca se meteu com tráfico. Mas, um belo dia, um dos seus fregueses morreu de tanto cheirar no quarto do motel e a idiota não pensou duas vezes em pegar os 2kg de cocaína que ele deixou no banheiro e sair atrás de um comprador.  Isso tinha sido há dois dias.

Ela me ligou e combinamos um preço. Só que eu sabia de quem era o pó, então queria fazer negócio na moita. Mas, eis que a bicha me aparece com esses dois imbecis. Eu teria que dar um jeito neles depois.

Brenda Kauana abriu a bolsa e colocou o pacote sobre a mesa. 2kg da melhor qualidade. O lugar era limpeza, não baixava polícia no bar de Lula. Só ladrão, puta, frango e cachaceiro. Puxei o envelope do bolso e lhe entreguei. Ela contou o dinheiro, sorriu e fez sinal para que os dois imbecis que estavam com ela se levantassem.

Foi nesse exato momento que a porta e as janelas se fecharam e a luz apagou. Então, ouvi o som de quatro armas sendo engatilhadas. Nem dez segundos passaram-se e a energia retornou. Queixo de Tamanco e Cabeça de Pica tinham, cada um, um 38. Moacir empunhava o 22 que eu havia lhe dado de aniversário, nem lembro o ano.

Atrás do balcão, Lula estava com sua 12, mas não era para nós que ele apontava. Ele mirava para o teto. De repente, o padre desceu as escadas correndo. Estava branco e suando. “Salvem suas almas”, gritou.

A luz foi embora de novo e o tiroteio começou. Eu tinha uma 9 mm na cintura. Saquei a arma, me joguei no chão e atirei na direção das pernas dos três babacas que estavam na minha frente. Eu os ouvi gritar e continuei atirando até descarregar a pistola.

Quando a luz voltou, Moacir estava morto. No outro lado da mesa, apenas Queixo de Tamanco estava vivo. Fui até o balcão. Lula estava sentado no chão agarrado com a sua 12. Peguei a arma emprestada e voltei para acabar com o sofrimento de Queixo de Tamanco. Lula veio correndo em minha direção e parou ao meu lado.

– Olha a merda que esses putos fizeram – disse Lula apontando para debaixo de uma das mesas. O padre jazia em uma poça de sangue.

Não mais do que de repente, alguém bateu na porta. Apontei a 12 e perguntei quem era. Achei que a situação não podia piorar, mas era O Doutor quem havia chegado. Peguei o pacote de pó em cima da mesa, o envelope com dinheiro que estava caído no chão e pedi para Lula escondê-los embaixo do balcão. Também deixei a 12 e minha pistola sem balas com ele e então fui abrir a porta.

O Doutor entrou acompanhado de três capangas.

– Cadê o frango? – perguntou. Eu apontei para onde os três corpos estavam caídos. – Que bagunça, hein? Cadê o pó?

Não adiantava dizer que eu não sabia. O Doutor já sabia de tudo. Ele sempre sabia de tudo.

– Lá em cima – respondi. Ele me pegou pela gola da camisa e disse “você vai na frente”.

Seguimos eu, os três capangas e O Doutor pela escada de madeira. Abri a porta devagar, enquanto os quatro me esperavam. Deu pra ver Margarete em cima da cama, como um animal em posição de ataque. Como eu já tava na merda mesmo, escancarei a porta, corri e me atirei no chão. Pela sombra, vi quando ela voou por cima de mim. Quando eu me virei, a garçonete estava atracada com um dos capangas. Poucos segundos depois, ela quebrou seu pescoço. Deu pra ouvir o estalo, apesar dos gritos da moça.

Então ela partiu em busca dos outros e desapareceu escada abaixo. Só ouvi berros e tiros. Corri para a janela. Lula estava do lado de fora, com a 12 na mão. Desci por um cano que havia na parede ao lado e fui até ele. Os gritos e os tiros haviam parado.

– Fuderam meu bar – disse Lula.

Entramos com cuidado. Todas as mesas e cadeiras estavam quebradas. Um dos capangas estava com o corpo partido ao meio. O outro tinha a cabeça há uns cinco metros do tronco e O Doutor estava pendurado pela gravata no ventilador de teto. Margarete coberta de sangue e de olhos esbugalhados nos encarava.

– Vou descontar isso tudinho do seu salário – sacramentou o dono do bar.

Peguei minha pistola, o pacote de cocaína e o envelope de dinheiro. Dei metade da grana a Lula e fui embora. Ele saberia como limpar aquela bagunça. Quase toda sexta tinha uma merda daquele tipo. Quase toda sexta-feira.

 

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4 respostas para Quase toda sexta-feira

  1. Blob disse:

    Caramba! Isso aqui é genial demais!

  2. Escreva mais desses Geraldo! Por favor!

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