A Dona da Mata

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Era dia de caçar na mata de Dois Irmãos. José e Pedro saíram logo cedo de casa, pouco tempo depois de o sol ter nascido. Os dois amigos, então com 15 anos cada, iam se aventurar sozinhos pela primeira vez naquele bosque. Isso tudo, sem o conhecimento e consentimento dos pais.

Pedro aproveitou que seu pai estava viajando ao interior, naquele final de semana, e pegou suas duas espingardas e suas bolsas de couro. José ficou esperando o amigo chegar, perto da entrada da mata. Era manhã cedo e não havia movimento naquelas bandas. Pedro não demorou a chegar. Como havia planejado tudo no dia anterior, foi só acordar pegar as coisas e sair ao encontro do seu comparsa.

Os dois nunca tinham ido caçar, mas já haviam aprendido a usar as espingardas atirando em passarinhos no quintal de casa. Mas na mata era proibido para eles. Muitas eram as histórias. De bandidos que roubavam as pessoas, de homens do saco que carregavam meninos, até causos de assombrações.

Enfim, quase nunca eles iam lá. Pelo menos não mata adentro. Mas vontade nunca faltou. Os dois sempre quiseram conhecer os segredos do bosque e nenhum dos dois tinha medo de qualquer história que já havia sido contada. Eles não eram mais crianças, diziam para sim mesmos.

Foram caminhando por dentro da mata sem parar um minuto. Chegaram até a beira do rio, onde havia várias pegadas de capivara. José analisou o rastro como se fosse um caçador experiente e viu para onde ele, supostamente, levava, pois nem ele tinha certeza de que sabia ler rastros de bichos. Mesmo assim, queria arriscar, e quando procurou o amigo, notou Pedro sentado ao pé de uma árvore.

Ele depositava no chão, um pouco de fumo de rolo.

– O que você está fazendo? – perguntou José.

– É um presente para a caboclinha. Para ela deixar a gente caçar e não nos bater.

– Isso é mentira, rapaz. Dizem isso para a gente não entrar na mata.

– Não é mentira. Meu pai faz isso toda vez que vem caçar. Ele sempre me disse. Minha mãe é quem vai na feira comprar o fumo. Agora, pegue isso – disse Pedro, tirando uma garrafa de aguardente de dentro da bolsa de couro.

– Isso é cana? – perguntou José.

– Sim. É seu presente. Coloque junto do fumo.

Apesar de José ser um bom amigo, Pedro não gostava de algumas atitudes dele. Por exemplo, ele sempre queria estar certo e ser mais esperto do que os outros. E naquele dia, ele teve mais uma de suas atitudes estúpidas. Ele destampou a garrafa, deu um gole na aguardente e sacudiu a garrafa dentro do rio.

Por conhecer o amigo, Pedro sabia que ele podia fazer alguma besteira, mas não algo tão sério como ofender a caboclinha. Ele não repreendeu o amigo em nenhum momento, apenas avisou:

– Você vai se arrepender.

José riu e disse que eles deveriam ir atrás das capivaras antes que os fantasmas as pegassem antes. Pedro contou que a caboclinha realmente existia. Essa história não era invenção. Falou que de vez em quando, os cavalos do velho Antonio apareciam com os cabelos e os pêlos do rabo todos trançados. E era obra da caboclinha. José apenas sorriu e disse, mais uma vez, que era bobagem.

Os dois seguiram para dentro da mata. Pedro ia na frente, mas José tomou a dianteira dizendo que ele é quem sabia onde estavam as capivaras. Pedro, mais uma vez, não disse nada e deixou o amigo fazer o que quisesse.

Em um determinado momento da jornada, os mosquitos começaram a atacar. José parou de repente e começou a coçar as canelas. Chamava um monte de palavrões e amaldiçoava os insetos. Depois de se coçar e espantar os mosquitos abanando as mãos, ele se ergueu de novo. Mas para a sua surpresa estava sozinho e a mata havia caído em um silêncio sepulcral. A única coisa que ele ouviu foi um assovio tão perto que parecia que alguém tinha soprado junto do seu ouvido.

O menino ficou apavorado. Olhava para todos os lados, chamava pelo amigo, mas não havia nem sinal dele. De repente alguém tocou em seu ombro e ele se virou, assustado.

– Pedro, tu tava onde, rapaz? – perguntou ele, quase chorando.

– Eu tava aqui. Tu que ficou rodando aí e gritando por mim feito doido. E eu aqui do teu lado.

– Tu não tava aí, não. Não tinha ninguém.

– Sabe o que é isso? Cachaça que tu bebeu – ironizou Pedro.

Mas ele sabia o que era de verdade e nada podia fazer para ajudar seu amigo. Continuaram a caminhar, só que dessa vez com Pedro na dianteira. Até mesmo por que José já estava com medo, apesar de não ter dado o braço a torcer, ainda.

Após alguns minutos, avistaram outro pedaço de terra que ficava a margem do rio.

– Ali Pedro, tás vendo?

Havia umas dez capivaras paradas na margem. Tentando fazer o mínimo de barulho possível, eles empunharam as espingardas e foram caminhando bem devagar em direção aos bichos. Pararam há uns cinco metros de distância. Como foram bem silenciosos e estavam escondidos atrás das plantas, as capivaras nem notaram a presença deles.

Mas quando fizeram mira e se preparam para atirar, os bichos partiram em disparada para dentro do rio.

– Que foi isso? – perguntou José, com raiva. – Como é que elas fugiram?

Não fizemos barulho nenhum. Você ouviu algum barulho?

– Vamos embora, José. A gente não vai conseguir caçar é nada hoje – disse

Pedro, desapontado, já pendurando a alça da espingarda no ombro.

– Embora nada. Dá pra atirar nelas, ainda.

– Elas já estão do outro lado do rio, José. Tá longe.

– Tá não, homem. Dá pra atirar. Minha mira é boa.

E então, José correu para a beira do rio. Pedro o acompanhou só para não contrariar, pois ele sabia que a caça já havia conseguido fugir.

José, agachado na beira do rio, tentava mirar nas capivaras que já estavam acomodadas do outro lado. Pareciam que estavam lá, zombando dos dois caçadores atrapalhados.

Pedro parou junto a José e ficou olhando para ele com uma cara de reprovação. Então, de repente, José se levantou e olhou para o amigo com uma cara desconfiada.

– Ouviu isso? – perguntou ele.

– O quê?

– Isso, Pedro – perguntou de novo.

– Isso o que, homem?

– Um assovio. O mesmo que eu ouvi antes, mas dessa vez tá bem distante.

Pedro começou a caminhar para longe do amigo. Ele conhecia as histórias. Já sabia o que ia acontecer e não queria estar perto dele.

– O que foi?

– Eu disse que tu ia se arrepender, Pedro. Eu disse.

Ela parecia uma menininha, usando um vestido branco e com longas tranças no cabelo que era comprido até sua cintura. Era assim que Pedro e José a descreveram quando contaram essa história para seus filhos e netos, anos depois. Mas eles contavam aquele causo, como uma brincadeira. Só para divertir, não assustar. Mas naquela manhã, na mata de Dois Irmãos, eles sentiram medo de verdade. Principalmente José.

A caboclinha surgiu de dentro da mata com um chicote feito de talos de urtiga. Primeiro ela passou correndo e rasgou a camisa do menino. Depois parou em sua frente e começou a gritar. Era uma língua estranha, nunca falada por homem nenhum em canto nenhum do mundo. Era a fala dos seres das florestas.

José tentou correr, mas levou um chute nas pernas e caiu de bruços. Foi aí que a surra começou. A caboclinha chicoteava o menino com uma rapidez assustadora. As cipoadas eram nas costas, nas pernas, nos braços. José só conseguia proteger mesmo, o rosto.

Seu amigo nada pôde fazer. A não ser assistir, abismado, a pisa que o amigo levava. Na hora, ele estava se pelando de medo, claro. Mas depois, pensando direitinho, bem que José mereceu a surra.

Depois que saciou a vontade de bater no menino malcriado que bebeu sua aguardente, a caboclinha sumiu mata adentro, tão rápido quanto apareceu. Restou a Pedro carregar de volta para casa o amigo espancado, duas espingardas, duas bolsas, e nenhuma caça para comer.

NDE: Esse conto foi escrito originalmente para o livro Malassombramentos: os arquivos secretos d’O Recife Assombrado. Porém, a versão que acabou publicada ficou bem diferente.

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