Havia um monstro embaixo da cama

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Havia um monstro embaixo da cama. Havia um monstro embaixo da cama todas as noites. Havia um monstro embaixo da cama todas as noites, desde quando Miguel se mudara para aquela casa. Havia um monstro embaixo da cama sempre. E quase nunca era o mesmo monstro.

A casa nova para qual o pequeno Miguel, de apenas 8 anos havia se mudado, a três meses, ficava exatamente em cima de um portal para uma outra dimensão. E a abertura desse portal em questão ficava localizada bem embaixo da sua cama. Uma infeliz coincidência.

Por quê? Porque sempre que dizia para alguém que “havia um monstro embaixo da sua cama”, o máximo que conseguia arrancar das pessoas eram risadas. Além de desacreditado, Miguel ficava com fama de pouco criativo, pois caia em um velho clichê.

Sempre que ele se preparava para dormir, olhava embaixo da cama. e lá estavam eles. Só dava para ver a cabeça, saindo de um buraco de onde também vinha uma luz amarela. De vez em quando, aparecia um que ele já conhecia, mas na maioria das vezes era uma cara nova.

Alguns sorriam, hora com bocas gigantescas, hora com bocas pequenas, hora com dentes enormes, hora com dentes pequenos, hora sem dentes nenhum. Às vezes até sem boca, mas dava para perceber que estavam sorrindo.

Mas havia os que não eram tão simpáticos. Alguns urravam, outros gruninham, uns guinchavam, outros tantos sibilavam. Miguel não gostava desses, mas também não tinha medo. Com o passar do tempo, ele percebeu que os monstros não podiam sair de debaixo da sua cama. Eles só poderiam colocar suas cabeças no buraco. Pequenos, grandes, velhos, novos, machos, fêmeas. De todos os tipos, idades e sexos.

Miguel resolveu desenhar os monstros para, digamos, catalogá-los. Ele também decidiu que seria bom lhes dar nomes. O com pelo azul, e chifres de bode e boca pequena, foi batizado de Gorgón. O careca, com apenas um olho e boca desdentada foi chamado de Ruckzóide. Ele inventava nomes como ninguém.

Depois de um tempo, ele havia desenhado monstros em um caderno inteiro. A cada dia seus desenhos ficavam mais e mais detalhistas. Seu pai lhe perguntou certa vez de onde ele tirava aquelas figuras, mas ele não falou mais sobre o buraco. Não queria que ninguém mais desse risadas.

Os monstros surgiam mais e mais. Só durante a noite. De dia, o buraco ficava fechado.

Certo dia, o pai de Miguel disse que eles iriam se mudar. Miguel já tinha 10 anos e sua coleção de monstro já era gigantesca.

Naquele mesma noite, ele olhou para debaixo da cama, como fez sempre nos últimos dois anos. Não havia monstro nenhum naquela vez. Mas o buraco estava lá, emanando sua luz amarela.

Miguel não controlou a curiosidade. Ele se arrastou pelo chão e olhou pelo buraco. Havia uma escada que ia até o chão. Lá embaixo estava um pequeno monstrinho parecido com uma lagartixa vermelha ao lado de um monstro mais velho, que lembrava um javali, e que se apoiava em uma bengala. Ao redor, havia várias tendas como um parque de diversões.

O monstrinho entregou uma moeda ao monstro idoso, passou pela corrente e foi caminhando até a escada. Miguel se esgueirou rapidamente de volta para sua cama. Alguns segundos depois, ouviu um barulho e olhou para o buraco. Lá estava a pequena lagartixa vermelha com os olhos arregalados. Miguel sorriu, mas ele não sorriu de volta. Parecia ter ser assustado e sumiu para dentro do buraco.

Miguel escorregou para debaixo da cama mais uma vez e olhou de novo para baixo. O monstrinho estava caído no chão, próximo à escada. Ao lado dele uma lagartixa vermelha, mais velha e usando vestido, discutia com o javali de bengala.

De repente, ela olhou para cima e gritou ao ver Miguel. Pegou o monstrinho nos braços e saiu correndo em disparada. O velho javali também correu, bem mais lento, amparado pela bengala.

Ao lado da corrente, Miguel conseguiu ler a uma placa onde estava escrito: “Venham ver. Menino monstro. apenas uma apresentação por noite. preço: uma moeda”. Miguel voltou para dentro do seu quarto e o buraco nunca mais abriu.

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3 respostas para Havia um monstro embaixo da cama

  1. Umas ilustrações casariam bem com o conto… Mesmo assim, excelente!

  2. Mauro disse:

    Massa, Fraga! Fazia tempo que eu não lia nada teu! Um abraço!!!

  3. Queops Negronski disse:

    Excelente, velho. Excelente. Parabéns e obrigado por ter voltado a escrever. A imaginação agradece.

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