Conto – Encontro com o adversário

Esse conto é baseado em uma antiga lenda do Recife, onde se dizia que certo “barão” se encontrava de tempos em tempos com o próprio demônio como forma de pagar uma dívida. A história faria parte do livro “Malassombramentos: Os Arquivos Secretos d’O Recife Assombrado”, mas ficou de fora por falta de espaço.

 

Encontro com o adversário

 

Naquela noite de sexta-feira, o barão estava dando uma festa em seu casarão do centro do Recife para comemorar o noivado do filho. A noiva era a filha de um renomado médico da capital pernambucana, por esse motivo havia tantas pessoas ricas e importantes presentes na ocasião.

Como bom anfitrião, o barão cumprimentava as pessoas e circulava por todas as rodas de conversa. O sorriso farto em seu rosto era algo aparentemente impossível de se apagar. Parecia que sua alegria iria durar para sempre. Mas quando o futuro sogro do seu filho, o convidou para fumar um charuto na varanda sua sorte mudou.

Assim que riscou o fósforo, ele viu a mensagem embutida na labareda. Uma ordem criptografada em fogo. Um chamado que vinha direto do inferno não podia ser impresso em outra coisa. Através da chama, o velho barão soube que era chamado para cumprir sua sina. E enfim, o sorriso farto desapareceu de seu rosto.

Despediu-se do amigo, desculpando-se por estar um pouco indisposto e que pediria para alguma das criadas lhe servir um chá. Tentando não chamar a atenção, principalmente da sua esposa e de seu filho, caminhou discretamente até os fundos da casa.

Assim que abriu a porta que dava acesso ao vasto quintal, ele viu, ainda de longe, um grande cavalo negro parado ao lado de um pé de manga. Seus ossos tremeram e um suor frio começou a escorreu da sua testa. Nunca em sua vida, aquele homem havia sentido uma angústia tão grande quanto aquela. Nem no dia em que o pacto foi firmado.

No quintal também ficava o pequeno casebre onde vivia o vigia do casarão. O barão caminhou devagar para não fazer barulho, pois ele presumiu que a mulher do seu empregado estava acordada, afinal estava ouvindo o choro do filho recém-nascido do casal.

Ao chegar perto do cavalo ele notou que além de seu pêlo ser totalmente preto, o bicho também estava completamente coberto de uma gosma da mesma cor, inclusive sua crina e seu rabo. Seus olhos eram duas bolas amarelas. O animal também soprava fumaça quando respirava. As cinzas saiam pela sua boca e narinas como se fosse uma lareira. De repente ele relinchou, e além de emitir um som estridente e pavoroso, deixou a mostra dentes afiados como o de um cachorro.

Assim que o bicho se curvou um pouco, o barão entendeu que estava na hora de subir naquela maldita montaria. Então ele montou e segurou em sua crina. Nesse instante, o cavalo partiu em disparada, pulou a cerca do quintal e se embrenhou pela mata que ficava atrás do casarão.

Durante todo o tempo em que seguia mata adentro, o barão ficou de olhos fechados. Segurando nos pêlos cobertos daquela gosma preta que fediam como alguma coisa morta. Seu medo era tanto que se lhe perguntassem quanto tempo durou aquela cavalgada ele não saberia dizer se foi um minuto ou uma hora. Quando o cavalo parou e ele desceu, ainda estava de olhos fechado e rezando.

 

– Aqui não. Sabe que eu não gosto de ouvir isso – disse uma voz rouca e áspera.

 

Só então o barão abriu os olhos. Ele estava à beira de um pequeno riacho e o homem que lhe falava estava sentando em um pedaço de tronco.

O sujeito se levantou e foi em sua direção bem devagar. Era um homem alto e forte de longos cabelos pretos, usando apenas uma calça de pano. Nada de camisa ou terno, e nem mesmo sapato. Ele caminhava descalço por cima de pedras e pedaços de madeira, mas parecia que não os sentia.

 

– Fale um daqueles nomes pelo qual vocês me chamam – pediu ele, sorrindo.

 

Ainda apavorado, o barão não conseguiu abrir a boca.

 

– Ande homem, diga. Eu conheço todos, mas gosto de ouvir vocês falando.

 

O barão tentou falar, mas só balbuciou alguma coisa de tão seca que estava sua boca. O homem insistiu para que ele repetisse, e então o velho pegou o fôlego e disse:

– Satanás.

– Eu adoro esse. Adoro – admitiu o demônio gargalhando.

 

Não se ouvia nada além da voz dele. Nenhum som de inseto e nem mesmo o barulho do riacho correndo. Enquanto o diabo fala tudo se fazia silêncio.

 

– Chegou a hora, barão. Vim cobrar o que me é de direito – disse ele, enfim.

– Meu filho se casará. Deixe-me viver mais – pediu o velho.

– Pedes mais do que eu já lhe dei. Mas tu tens algo mais a oferecer-me? Proferi a ti fortuna e luxúria por cinco anos, em troca de tua alma. Acho que não tens mais nada para me oferecer, já que a coisa mais importante em ti agora me pertence.

– Só mais alguns meses, eu imploro. Só até o casamento.

– Em troca de que, velho? O que tens para negociar? – indagou o diabo.

– Posso lhe dar outra alma. Uma pura. Uma alma sem pecado, como oferenda – falou o barão, e em seguida se ajoelhou aos pés do demônio.

 

O diabo deu um passo para trás, para evitar que o velho lhe tocasse, e então riu. O barão começou a chorar e rastejar pelo chão.

 

– Fale-me sobre essa alma que trará para mim. E então eu verei se aceito a proposta – sentenciou o demônio.

 

No casarão, todos os convidados já haviam ido embora. Restaram apenas o filho e a mulher do barão. Acompanhados dos empregados, eles percorreram toda a residência e o quintal à procura dele. Já perto do amanhecer, uma das mucamas começou a gritar chamando todos que estavam na casa.

O barão surgiu nos fundos da casa, caminhando lentamente como se estivesse exausto. E assim que seus empregados chegaram perto dele, ele desmaiou. Levado para seu quarto, foi lhe dado um banho quente e esfregaram alecrim em seu corpo. O velho não dizia uma palavra, apenas gemia como se algo lhe machucasse o corpo. Mas não havia feridas em sua pele, era como se algo lhe atacasse de dentro para fora.

Após alguns dias o barão voltou ao normal. Nunca disse nenhuma palavra sobre o acontecido no dia do noivado do filho, como também proibiu que sua família e seus servos tocassem no assunto. Mas entre a criadagem, os comentários aconteciam. Alguns empregados foram embora, com medo. Quem também demonstrou interesse em ir embora, foi o seu vigia, mas o barão lhe implorou que ficasse. Inclusive, dobrou o valor do seu salário para que ele permanecesse em seu cargo. Apesar das queixas da esposa, o vigia decidiu ficar, pois o dinheiro que iria ganhar era uma quantia muito satisfatória.

Seis meses se passaram e o filho do barão se casou. Após a cerimônia religiosa, o casarão abrigou uma grande festa com todos os convidados.

E então em meio ao banquete, o barão novamente recebeu o chamado que tanto temia. É claro que aquele estranho fenômeno só foi visto pelos olhos daquele homem amaldiçoado, pois o recado era exclusivo para ele. De repente a parede branca da sala de jantar foi atacada por uma tinta vermelha e, como se fora pintada por um pincel invisível, a palavra “inferno” surgiu escrita. Era assim, que mais uma vez, o príncipe das trevas o convocava para um encontro em particular. Após aquela visão aterradora, o barão entendeu que era chegada a hora de uma nova conversa e saiu sem ser notado.

A festa prosseguiu, mesmo com a ausência do dono da casa. A alegria do casal recém casado era imensa e todos os convidados compartilhavam daquele momento agradável. Ainda mais quando a comida e a bebida eram fartas como naquela noite. Mas de uma hora para a outra, a harmonia daquela celebração foi posta a baixo por um grito de desespero.

A esposa do vigia invadiu a sala de jantar aos berros. Sua histeria era tanta que ela arrancava tufos de seus próprios cabelos com as mãos. Apesar dos apelos dos homens que correram em seu socorro, ela não conseguia falar nada. Apenas gritava e chorava desesperadamente.

O filho do barão resolveu correr até o quintal e olhar o casebre onde a mulher morava. Assim que chegou, deu de cara com uma cena grotesca. O vigia jazia na cama do casal com um enorme punhal enfiado no peito. O sangue que escorria era tanto que chegou a ensopar todo o lençol. Ao lado da cama, havia um berço vazio.

Nauseado o jovem saiu do casebre a procura de ar puro. E foi justamente nessa hora que ele teve uma visão que ficaria na sua cabeça por muito tempo. Seu pai cruzava o quintal montado em um enorme cavalo negro que corria em uma velocidade tão absurda que parecia mais uma enorme ave fazendo um vôo rasante. E após pular a cera, o animal desapareceu noite adentro.

Logo em seguida chegaram dois empregados da casa. As ordens do jovem foram explícitas. Que levassem a mulher para um lugar onde ninguém pudesse vê-la e que fechassem a porta do casebre com correntes.

Na beira do mesmo riacho de antes, o demônio esperava pelo velho. O barão desceu do cavalo trazendo nos braços a criança, que chorava sem parar. O diabo se aproximou com um sorriso no rosto. Um sorriso que parecia mais uma ferida aberta.

– Uma alma pura por mais seis meses de vida. Acho que valeu a pena – disse ele.

– Que Deus me perdoe – balbuciou o barão, já em lágrimas.

– É tarde, velho. É comigo que tratas, agora – replicou o diabo.

E então tomou a criança em seus braços e saiu caminhando rumo ao riacho.

– Aguarde. Vou chamar-lhe de novo. E espero um novo presente – sentenciou ele, antes de desaparecer nas águas.

 

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