Cruz do Patrão

Versão original do conto que eu escrevi para o livro “Malassombramentos: os arquivos secretos d’O Recife Assombrado”.

 

Foto: Pedro Valadares

 

 

Na Cruz do Patrão

A luz da lua cheia iluminava o enorme homem negro parado em frente à coluna. Ele era alto e forte, e sua pele muito escura. Aquele foi o primeiro a aparecer. Depois, pouco a pouco, outros mais foram surgindo. A cada piscar de olhos, uma nova figura chegava. Uma multidão começou a surgir do nada. Homens, mulheres e crianças. Todos nus e tão escuros quanto sombras.

O nome do menino era José. Ele tremia de medo e não conseguia se mexer. E ali, naquele lugar ermo, em uma noite de lua cheia, os fantasmas de um passado muito distante vinham se mostrar. Ele estava bem próximo da coluna onde ficava a cruz. E entre o garoto e a antiga construção estava um exército de almas de outro mundo.

As assombrações não faziam som algum. Os gritos que ele ouvia, naquele momento, eram dos seus amigos que estavam bem atrás dele. José não conseguia entender o que os meninos gritavam. Toda a sua atenção estava voltada para as figuras negras que formavam uma verdadeira barreira na sua frente. E, aterrorizado, ele não conseguia sair do lugar.

Algumas horas atrás, um pouco antes de escurecer, ele e mais três amigos estavam no bairro do Recife tomando banho na maré. Foi quando um deles propôs uma aposta. Quem teria coragem de ir até depois do porto e tocar na Cruz do Patrão. Os outros, assim como aquele que fez o desafio, morriam de medo da Cruz. Mas José sempre gostou de se amostrar. Ele bateu no peito e disse que topava o desafio. O feito, se alcançado, lhe renderia 10 bolas de gude, um badoque e um peão, todos de propriedade dos outros meninos. Caso José não conseguisse tocar na cruz, dividiria suas coleção de pipas com os demais.

Assim resolvidos, os quatro amigos caminharam em direção ao porto do Recife. Para burlar a segurança, aproveitaram a maré seca e foram por dentro do mangue. Era o modo mais seguro de entrar no porto sem ser visto pelos vigias. O caminho não era tão longo, mas por dentro da lama eles levaram mais tempo do que o normal. Sendo assim, já estava completamente escuro quando alcançaram o local onde estava a antiga coluna. No topo dela, ficava a cruz do patrão, que há muito tempo atrás servia de baliza para os navios que entravam no porto.

Mas não era essa história que transformava aquela construção e aquele lugar em algo aterrorizante. Não a cruz, por si só. Não ela, lá parada, imóvel, resistente ao tempo. O que havia sido feito perto dela, por homens tão cruéis como o próprio demônio, era o que trazia maldição àquele sítio.

O mau agouro começou nos tempos dos escravos. Os negros que morriam nos navios eram enterrados bem ali. Nada de cemitério ou enterro cristão para os pagãos, considerados selvagens pelos brancos. Mas mesmo sem batismo, eles tinham almas. E seus espíritos, assim como seus restos mortais, ficavam ali para sempre.,

Depois vieram mais histórias. Mortes misteriosas, homens brutalmente assassinados, uns pelos braços da lei, outros pelos marginais que rondavam aquela área deserta da cidade. Era um chão manchado de sangue aquele. Um chão onde ninguém descansava em paz.

Também havia ali, o encontro dos que faziam catimbó. Pais e avós diziam para as crianças ficarem longe daquele povo. Aquilo não era coisa de gente clemente a Deus. Diziam que o povo da macumba matava galinha e bode para dar de comer ao diabo e que um dia ele apareceu de verdade. Soltando enxofre, ele correu atrás de uma negra do toutiço gordo e sumiu com ela para dentro da água.

Por tudo isso, dito há várias gerações, eram poucos aqueles que se atreviam a ir ali durante a noite. E alguns, inclusive,morriam de medo até durante o dia. Mas lá estava José, disposto a caminhar até a cruz e provar que tinha mais coragem do que qualquer garoto, e mais até do que alguns homens feitos e com barba na cara.

Os outros três pararam próximo a uma fileira de pedras e disseram que de lá não passariam. José teria que seguir sozinho a partir daquele local. O menino então suspendeu as calças, prendeu a respiração e caminhou a passos largos rumo ao seu destino.

Sua pisada era forte e suas passadas rápidas. Estava com medo, bem verdade, mas repetia em sua mente que não havia fantasma, nem qualquer alma do outro mundo por ali. Foi quando de repente a figura negra apareceu. Primeiro era um vulto em meio à escuridão, depois tomou forma de homem em frente ao menino.

Então, os outros foram surgindo. Alguns tinham marcas pelo corpo, marcas de feridas, e manchas de sangue. Cada um possuía alguma, diferente uma das outras. Mas uma coisa os tornava parecidos. Todos os rostos, inclusive os das mulheres e os das crianças, eram tristonhos. “Não havia sorrisos no além”, pensou José.

Enquanto observava os detalhes daquela visagem, o menino foi se acalmando. Ele notou que não havia nenhum sentimento ameaçador ali. Apesar da visão fantasmagórica, uma sensação de paz se fazia presente. Em nenhum momento, as assombrações ameaçavam correr a trás dele.

Os outros garotos continuavam a gritar, mas José não conseguia entender o que eles diziam, nem por que suas vozes pareciam tão distantes. Ele sabia que seus amigos estavam próximos, mas era como se o som viesse de um lugar muito, muito além. Como se ali, onde José estivesse com os fantasmas, fosse um outro local longe de tudo.

De repente, os gritos cessaram. Então, o menino olhou para trás e viu seus amigos correndo em disparada. Todos eles partiram em direção ao mangue e se jogaram dentro da lama. Parecia que eles estavam fugindo de algo assustador. Quando José se deu conta, uma mão segurava seu braço.

Para surpresa dele, não era nenhum dos fantasmas. Era um dos homens que tomavam conta do porto. Um sujeito já velho e com boa parte dos dentes podres. Pelo hálito fedorento, José percebeu que ele estava bêbado e, então, tentou se soltar aproveitando a condição do homem. Mas mesmo embriagado e velho, ele era forte. E com um empurrão, jogou José no chão.

Assim que o menino caiu, o homem puxou seu cinto. Disse que bateria nele até ele sangrar, pois só assim não voltaria jamais ao porto. José pôs as mãos para cima, a fim de proteger o rosto das chicotadas. Mas algo aconteceu, nesse instante. Uma ventania começou a soprar. E junto com o vento, vieram todos os fantasmas na direção do agressor. Eles gritavam e falavam em línguas estranhas, que José não conseguia entender.

Nem deu tempo de o homem olhar para trás. O vento o atingiu nas costas e o ergueu a poucos metros do chão. Vários braços negros o suspenderam no ar como uma folha. O homem não reagiu, nem gritou, estava imóvel. Então as assombrações desapareceram como fumaça, e o seu corpo despencou. Ele aparentemente já estava desacordado antes de cair, e assim permaneceu depois de bater no chão.

José não sabia o que lhe tinha dado mais medo, se a surra que estava para levar ou os fantasmas. Mas se tinha uma coisa que ele sabia era que precisava ir embora dali o mais rápido possível. Só que antes de ir embora, ele cumpriu a promessa. Caminhou até onde disse que iria e tocou na cruz do patrão.

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