Mallorca

 

Em uma tarde de quarta-feira, tive um desejo incontrolável de entrar em uma casa lotérica. No dia seguinte, eu era o mais novo milionário do país. Acertei os 6 números da mega-sena. Fui até a Caixa Econômica e abri uma caderneta de poupança com os 32 milhões de reais. O gerente só faltou lamber meu saco.

Isso aconteceu há 4 anos. Durante todo esse tempo em que caguei dinheiro, viajei o mundo todo, comi uma centena de putas, cheirei uma infinidade de gramas e fumei outras tantas. Torrei dinheiro como se não houvesse amanhã.

Mas mesmo durante toda essa farra, não me saía da cabeça a forma estapafúrdia como eu havia ganhado esse prêmio. Nunca havia apostado em nenhuma loteria durante toda a minha vida. Nem em jogo do bicho. E, de repente, eu acerto na mosca na mega-sena. Como poderia ter tido tanta sorte?

A resposta veio numa manhã de sábado, em um quarto de hotel em Mallorca. Mesmo tendo enchido a cara de vinho no dia anterior, me lembro perfeitamente de ter ido para a cama com uma loira aliciada pela gerência do hotel. Mas quando acordei, ela não estava mais lá.

Levantei-me com uma dor de cabeça infernal e vesti o roupão que estava jogado ao lado da cama. Abri o frigobar e bebi quase meio litro de água. A suíte tinha vista para o mar e a brisa do atlântico entrava pela janela aberta. Era espetacular ser rico.

– Espetacular – disse uma voz atrás de mim, como se lesse meu pensamento.

Tomei um susto e me virei de um pulo só.

Sentado no sofá da suíte, havia um homem. Um sujeito que aparentava ter minha idade, 26 anos, e que usava um terno branco. Tinha cabelos pretos, lisos, penteado para trás. Estava descalço e fumava uma cigarrilha marrom que expelia um cheiro de cravo. Eu sabia que nunca o tinha visto, mas ele tinha um ar familiar.

Corri até a porta, mas ela estava trancada. Gritei pelos meus seguranças que deveriam estar de plantão na entrada do quarto, mas ninguém respondeu.

Apesar do meu descontrole, o homem continuava sentado no sofá, de pernas cruzadas, fumando sua cigarrilha.

– Ninguém vai vir – disse ele apontando para o enorme relógio que estava pendurado na parede.

Os ponteiros não se mexiam. Corri em direção à varanda e olhei para o playground do hotel. Lá embaixo, os hóspedes pareciam estátuas. A brisa do mar sumira. O tempo havia parado.

– Tem um resto de vinho naquela garrafa – ele apontou para a mesa. – Sirva-me uma taça.

Dando-me ordens daquele jeito, achei que o sujeito estivesse armado. Então, obedeci. Servi duas taças. Fiquei com uma e lhe entreguei a outra.

– Quem é você? Se quiser dinheiro, eu não tenho muito aqui comigo, mas tenho algumas jóias.

– Se não tivesse sido eu próprio o autor dessa artimanha, eu estaria realmente surpreso de você não se lembrar de mim – disse o homem, erguendo uma sobrancelha.

– Que artimanha? Do que está falando?

– Foi um dos seus pedidos. “Apague da minha mente, esse acordo. Quero viver sem saber que, um dia, esses quatro anos acabarão dessa forma.”

­– Como assim “dessa forma”? – perguntei.

Então, ele estalou os dedos e tudo ficou escuro como se tivesse anoitecido. A televisão ligou sozinha. E, lá dentro, sentados em uma mesa, estávamos nós dois.

– Assine aqui – disse o homem dentro da TV, apontando para uma folha de papel.

As mãos do “eu” da TV tremiam, mas mesmo assim o contrato foi assinado.

– Apague da minha mente, esse acordo. Quero viver sem saber que, um dia, esses quatro anos acabarão dessa forma – falei, na Televisão.

E, então, as lembranças surgiram em minha mente. Larguei a taça de vinho que estava em minha mão. Logo em seguida a dor começou.

 

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