Alguém chame um médico

Nas últimas semanas, Otávio estava ficando até mais tarde no consultório. Além do número de atendimentos ter aumentado consideravelmente, após ele conceder entrevistas a três jornais e ser capa de uma revista especializada, ele ainda estava preparando o material que apresentaria em um congresso em Barcelona.

Era o preço da fama. Ele já estava até pensando em contratar funcionários, parar com as consultas, e se dedicar exclusivamente às suas pesquisas.

Olhou para o relógio em forma de cachorro que ficava em cima do computador. Eram onze e meia da noite. Só então se lembrou que não avisara a esposa que não ia chegar a tempo para o jantar.

– Alô, querida. Sou eu.

– Eu sei – respondeu ela. E em seguida bocejou.

– Já estou saindo daqui – ele disse.

– Eu guardei lasanha pra você. Só precisa esquentar quando chegar.

– Obrigado, querida.

– De nada, doutor – respondeu ela, rindo – Tomou seu remédio?

– Tomei sim. Eu te amo.

– Vem logo.

Mentiras. Ele não iria para casa naquela hora. Sua amante o esperava num restaurante japonês do outro lado da cidade. Ele também não tinha tomado o remédio. Havia esquecido. O envelope continuava dentro da gaveta desde a manhã. Pílulas de nitroglicerina, para tratamento de angina.

Otávio ligou para o porteiro do prédio, mas ele não atendeu o interfone. Precisava que o porteiro desligasse o alarme da garagem para que ele pudesse sair. Ele era o único locatário que ainda continuava no prédio. Ligou mais duas vezes e nada. Então, arrumou sua pasta e foi embora.

A porta do elevador abriu quando chegou na garagem. Otávio não poderia sair do elevador, ou os sensores iriam fazer o alarme soar.

– Raimundo – gritou ele.

Ninguém respondeu. Ele decidiu sair assim mesmo. Assim que pôs os pés do lado de fora, Otávio abaixou a cabeça e fechou os olhos, esperando ouvir um barulho ensurdecedor. Ele já tinha ouvido aquele alarme e era realmente um som alto e desagradável.

Mas o alarme não disparou. Otávio ergueu a cabeça e olhou em todas as direções, ainda procurando o porteiro, e nada. Então, deu nos ombros.

Quando entrou no carro, tirou seu jaleco e o jogou, junto com a sua pasta, no banco de trás. Assim que pôs a chave na ignição, as portas de trás se abriram. Dois homens haviam entrado.

– Tenho uma arma apontada para você. Qualquer gracinha e suas tripas vão colorir o pára-brisa – disse o cara que estava atrás dele.

Otávio podia sentir o cano em suas costas. Era uma arma grande, pensou ele.

– Eu tenho dinheiro e celular – falou.

– Só dirija – disse o outro homem.

Otávio deu a partida e seguiu devagar até a rampa que dava acesso à rua. Lá, na subida, havia um terceiro homem. Um sujeito branco, alto e forte. Tinha os cabelos pretos, na altura do ombro. Raimundo estava caído ao lado dele. O homem fez sinal para que Otávio parasse o carro e, então, entrou e sentou-se no banco do carona.

– Pegue a avenida principal em direção ao subúrbio – disse o homem.

– Eu tenho dinheiro. Pode levar tudo – disse Otávio. Estava suando e tremendo.

Nenhum deles respondeu. Otávio pegou a principal, no sentido subúrbio. Dirigiu durante cinco minutos de total silêncio.

– Pegue o viaduto, doutor – disse o homem no banco de carona.

– Eu tenho dinheiro aqui. Já disse.

– Está me irritando, doutor – disse o homem com a arma, pressionando ainda mais o cano no banco do motorista.

O homem do carona acendeu um cigarro e mandou Otávio pegar o viaduto, pelo lado direito.

– Certo, doutor. Estamos chegando. Sendo assim, vou lhe deixar a par da situação. Tudo bem?

Otávio sentiu uma dor no peito e se lembrou que seu remédio continuava na gaveta do consultório. Ele respondeu a pergunta do homem, fazendo um sinal positivo com a cabeça.

– Um dos meus amigos foi baleado num assalto a um carro-forte, agora há pouco. Não posso levá-lo ao hospital. Você vai ter que operá-lo.

Otávio teria gritado se a dor não tivesse aumentado e feito ele gemer. Ele levou a mão ao peito.

– Não posso – disse ele, em voz baixa.

– Claro que pode. Abrimos a mala do seu carro antes de você chegar e vimos que seus equipamentos estão todos lá – falou um dos homens no banco de trás.

– Não é isso. Eu não sou médico, porra – enfim, conseguiu falar – Eu sou veterinário.

– Mas é disso mesmo que precisamos – disse o homem com a arma.

Chegaram a uma área onde havia alguns armazéns abandonados. Otávio desceu do carro, cambaleando. Um homem do banco do carona o segurou.

– Qual o problema, doutor?

– Meu remédio. Sofro do coração.

– White, vem cá.

O homem se aproximou. Só então Otávio notou que ele não carregava uma arma. Era um secador de cabelo.

– Pegue o carro e vá comprar os remédios do doutor. Ele não pode operar assim. Qual é o remédio?

– Não posso operar assim, nem de jeito nenhum. Sou veterinário, já disse.

– Qual o remédio, doutor? – perguntou de novo.

– Pílulas de nitroglicerina – respondeu ele, gemendo. A dor tinha aumentado.

O homem chamado White entrou no carro e partiu. Os outros dois levaram Otávio para dentro do armazém e o colocaram em uma cadeira. Ele folgou a gravata e desabotoou o primeiro botão da camisa.

– Tudo bem doutor. Meu nome é Blue e o do meu amigo é Blonde – disse o homem que estava no banco do carona.

– Isso são nomes mesmo? – perguntou Otávio, erguendo a sobrancelha.

Dentro do armazém havia uma porta que dava para os fundos. Alguns sons vinham de lá.

– Não são nomes verdadeiros. Você não pode saber nossos nomes verdadeiros. Por isso coloquei esses. Nunca viu Cães de Aluguel, doutor?

– Não.

– Eu também nunca vi – disse Blonde. – Mas gostei do meu nome.

– Me deixem ir. Não posso ajudar. Não posso operar seu amigo.

Os sons aumentaram. Otávio levantou-se.

– Isso foi um uivo? – perguntou ele, assustado.

De repente um som agudo cortou todo o galpão.

– Não doutor, isso agora foi um uivo – respondeu Blue. Ele e Blonde gargalharam. – Deixe-me apresentá-lo ao seu paciente.

Os homens arrastaram Otávio pelos braços. Ele tentou se debater, mas seu peito doía e ele achou que fazer esforço seria pior.

Blonde abriu a porta. Entraram em uma sala mal iluminada. Das seis lâmpadas, só duas funcionavam. Em um dos cantos, havia algumas sacolas de pano. O cheiro era insuportável para Otávio. Os outros não pareciam se incomodar. Nem com o odor, nem com os sons emitidos pelo lobo que estava amarrado numa mesa no centro da sala. Otávio se soltou e correu para fora do lugar, gritando. White havia acabado de chegar.

– Trouxe o remédio? – perguntou Blue, que vinha logo atrás de Otávio.

– Sim. Tinha uma farmácia aqui perto – respondeu White, lhe entregando o envelope com as pílulas e uma garrafa de água mineral.

Otávio estava acocorado no canto da parede. Chorava compulsivamente e apertava o peito com a mão direita. Blue lhe deu o remédio, mas ele recusou a água. Pôs a pílula embaixo da língua e enfim, relaxou. Então se sentou e esticou as pernas.

– O que é aquele bicho lá dentro? – perguntou ele.

– Pense nele como um cachorro grande – respondeu Blue. – Ele está ferido e precisa ser operado.

– Não vou chegar perto daquele monstro. Vocês não podem me obrigar. Nenhum de vocês tem armas, só um secador de cabelos.

– É. Não temos armas, mas se você não colaborar eu solto o nosso amigo que está lá naquela mesa e ele vai pegar você – O sorriso havia sumido do rosto de Blue.

– O que querem que eu faça? – perguntou Otávio.

– Tem uma bala alojada próximo ao coração dele. É só extraí-la.

Blonde se aproximou com a maleta de Otávio e lhe entregou. Ele a pôs no colo e respirou fundo. A dor já estava passando.

– Vamos lá – disse ele, e ergueu a mão para que Blue o ajudasse a se levantar.

A sala não era só mal iluminada, era muito suja também. Otávio teve que colocar sua maleta no chão imundo para retirar as ferramentas. Ele entregou o bisturi, a tesoura e a pinça para os homens e pediu para que eles passassem as chamas dos seus isqueiros nos objetos. Em seguida tirou um pacote de gaze e colocou no bolso.

– Vai ser sem anestesia, a não ser que vocês tenham alguma droga aí.

– Não temos. Vai assim mesmo.

O lobo se contorcia e girava para um lado e para o outro. Seu peito estava todo coberto de sangue. Os pelos cobriam o lugar exato do ferimento. Otávio pediu a tesoura a um dos homens, mas quando tocou no lobo, o animal tentou avançar nele.

– Segurem ele. Pelo amor de Deus.

Os três puxaram o lobo pelo pescoço e viraram a cabeça dele para o outro lado. White enrolou um grande pedaço de fita adesiva ao redor do seu focinho.

Blonde e Blue seguraram suas patas dianteiras, e só então Otávio conseguiu ver a ferida.

O animal, enfim, parou de se debater e Otávio cortou o pelo ensaguentado, do lado esquerdo do peito do lobo.

O sangue era escuro e cheirava mal e o ferimento não parava de sangrar. Otávio já tinha gasto mais de três metros de gaze para limpar o local. A pele por baixo da pelugem era muito branca.

– Pode meter o bisturi, doutor. Não sendo de prata, ele aguenta – gritou Blue

– Só não deixem ele me morder.

Otávio fez um corte de trinta centímetros de cima a baixo, passando o bisturi por cima da ferida. O lobo contraiu-se, mas não se debateu. Saía um pouco de fumaça de dentro do corte. O doutor afastou a carne com a mão esquerda e com a outra mão enfiou a pinça no buraco. Não foi difícil achar a bala, era ela que exalava a fumaça. O objeto queimava a carne do animal. Quando Otávio a expeliu, o lobo uivou mais uma vez e amoleceu o corpo, esticando as patas e deitando a cabeça na mesa.

Blode tomou a pinça da mão de Otávio e pegou a bala na ponta dos dedos.

– Eles sabiam que nós íamos roubar o carro-forte. Ou toda empresa de segurança usa bala de prata, agora? – perguntou ele.

– Depois discutimos isso. Temos que ir agora – disse White.

– Por que a pressa? – perguntou Blue, com um sorriso no rosto. – O doutor aqui fez um bom trabalho. Limpo e rápido.

– A polícia pode estar vindo para cá – falou White, coçando a cabeça – É que naquela hora, que eu fui buscar o remédio, eu assaltei a farmácia e um carro da polícia me perseguiu. Eles ainda podem estar me procurando.

A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Blue caminhou até White, como a sobrancelha esquerda erguida.

 – Acabamos de roubar um carro forte. Por que você não pagou a porra do remédio, ao invés de roubá-lo?

– Sei lá. Força do hábito, eu acho – respondeu White, com um sorriso amarelo, que se desfez logo em seguida, quando as sirenes começaram a soar.

Otávio estava sentado no chão, ainda tentando se limpar do sangue do lobo. Nesse instante ficou com medo que os homens entrassem em desespero e fizessem uma loucura como, por exemplo, fazê-lo de refém. Mas nenhum dos três mostrou nervosismo.

Blonde e White pegaram duas sacolas, cada um, e as prenderam pelas alças com seus dentes. Blue caminhou até a mesa e pôs o corpo de um homem em seus braços. Otávio olhou para ele espantado e confuso. De onde surgiu aquele homem e pra onde havia ido o lobo?

– Obrigado, doutor – disse Blue.

Além de ter sido muito rápido, Otávio teve medo, muito medo, e preferiu ficar a maior parte do tempo de olhos fechados. Mas ele viu, mesmo que por alguns segundo, os três homens se transformarem em lobos, iguais àquele que ele tinha operado minutos antes. Eles escalaram as paredes do armazém com suas garras e, em seguida, ganharam à noite arrombando o teto.

A polícia ainda estava lá fora, decidindo como entrar no local. Otávio colocou outra pílula embaixo da língua e deitou-se no chão sujo. Ficou pensando que história contaria a sua mulher. Pelo menos se ela perguntasse se ele tinha tomado o remédio, ele não precisaria mentir.

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