É nós, maluco!

O Chapeleiro Louco segundo Sir John Tenniel

 

Uma poesia de Jessier Quirino, da qual não me recordo o título, diz que toda cidade de interior tem um “doido pra os meninos jogarem pedras”. Assim também acontece nos bairros do Recife. Garanto que todo mundo conhece ou conheceu um maluco que andava pelas redondezas de suas casas. Em Casa Amarela, não me lembro de nenhum doido no qual a gurizada jogasse pedra, mas conheci um que jogava pedra nas crianças. Não dizem que doido, doido mesmo, é aquele que come merda, rasga dinheiro e joga pedra? Quanto a comer merda e rasgar grana eu não sei, mas jogar pedra era com um gordinho conhecido como “Pá”. Vez por outra, ele aparecia. Usava calça jeans, camiseta branca, uma mochila velha pendurada na frente, e um capacete de operário. Até hoje o capacete é um mistério. O gordo até que era tranqüilo, quando não o incomodavam. Ele caminhava a passos lentos e de cabeça baixa, sem mexer com ninguém. Mas era só algum maloqueiro gritar a frase “Pá, mataram Batman”, que o gordo virava bicho. Aí, era só correr por que o que ele visse de tijolo e pedregulho na frente e jogar no povo. E não queria nem saber se tinha carro na rua, criança e idoso passando. Afinal, o cara era doido, porra. Até hoje, ninguém nunca me explicou por que a simples menção da morte do homem morcego deixava o gordo uma fera.
Outro famoso, e que ainda perambula pelas ruas de Casa Amarela, é uma figura já idosa chamada de “Caga na Lata”. Idoso, mas não menos hostil. Chamá-lo por esse nome, desencadeia uma fúria animalesca no coroa. Esse, eu fiquei sabendo que ganhou a alcunha após ser flagrado defecando em uma lata de Nestom. Não sei por que ele escolheu tal artefato como vaso sanitário e, sinceramente, não faço questão de tomar conhecimento. Mas “Caga na Lata” agora tem uma vida tranqüila, pois a molecada de hoje não sabe que ele carrega essa sina ser o doido que se estressa com o apelido. Só quem sabe dessa história é a galera da minha época e, felizmente, ninguém na faixa dos 30 anos vai se passar a ficar chamando ninguém de “Caga na Lata” no meio da rua. Por isso, ele vive hoje tranquilamente, passando de um lado para o outro com suas sacolas de plástico que ninguém nunca soube o que tem dentro.
Casa Amarela sempre teve um elenco considerável de malucos, na maioria alcoólatras que perderam a consciência por causa da bebida. Mas todos eles ficavam putos ao serem chamados por seus apelidos desagradáveis. Tinha o “Papa-Vento”, chamado assim por conta do nariz avantajado. Tinha o “Ceguinho”, que usava um enorme óculos fundo de garrafa e que repetia incansavelmente o slogan da Rádio Globo (Rádio Globo-bo-bo-bo). Tinha um que, não me recordo o nome, mas sempre que passava de bicicleta a galera pedia “Imita uma coruja”. Ele respondia: “Na Volta”, mas nunca imitava.
Só que o doido mais “maluco beleza” que já passou por Casa Amarela foi a figura histórica “Marco Doido”. Roqueiro, skatista, surfista, maconheiro e evangélico. Tudo isso reunido em uma pessoa só. Apenas as histórias de Marco Doido dariam um post só para ele, por isso vou falar apenas de uma.
No Abril pro Rock de 1997, houve uma confusão após o show. Um som parecido com um tiro fez todo mundo sair correndo pra se esconder. Uma parte da galera se abrigou num quiosque da Skol. A senhora dona da barraca gritou para o povo ter cuidado, pois o freezer estava dando choque, então todo mundo, inclusive ela, ficou encolhido no canto do quiosque. Todos encostados um no outro. Eis que Marco Doido surge do nada, grita “rock n roll” e dá um verdadeiro “mosh” para dentro da barraca. Só que ele caiu com uma mão encostada no freezer e a outra em um dos caras que estava encolhido. Resultado: ele conduziu a corrente elétrica e todo mundo levou um choque do caralho. A velha quase morre por conta do choque.
E nessa mesma noite, a gente voltou a pé do Centro de Convenções, pois a grana não dava pra táxi e não havia mais ônibus. Pois Marco Doido fez o percurso Complexo Salgadinho – Casa Amarela inteiro repetindo incessantemente a frase “Feijão, Arroz, Macarrão e Carne”. Por que ninguém sabe, e eu acho que nem ele poderia explicar, mas esse fato irritou todo mundo. Marco Doido morreu em 1999, mas é sempre lembrado nas conversas de mesa de bar.

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Uma resposta para É nós, maluco!

  1. Tiago Sampaio disse:

    o doido do papa-vento jogou um tijolo no portão aqui de casa, eu adorava pertuba-lo!

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