O Jantar dos Mortos

 

Tudo estava pronto para o jantar. Anabel queria que aquela noite fosse perfeita, sem que nada, absolutamente nada, desse errado. Sentou-se ao lado de Augusto e começaram reler a lista de convidados. Queriam ver se faltava ou sobrava alguém. Se tivessem esquecido alguém importante, essa pessoa rapidamente receberia um telefonema informando sobre o jantar. “Foi tudo planejado de última hora”, diriam para esconder a gafe de ter esquecido tal convidado. “Desculpe, mas foi cancelado”, diriam a alguém que fosse cortado da lista. Não queriam pessoas inconvenientes ou que não fossem influentes nos seus círculos de amizade.

Augusto lia os nomes e Anabel dava o veredicto:

–         João Medeiros? – Perguntou Augusto.

–         Confirmado. O homem é filho de deputado, meu bem. Esqueceu? – sentenciou Anabel.

–         Alfredo Gonçalves?

–         Confirmado. A namorada dele é editora do Diário de Pernambuco.

–         Sara Teixeira?

–         Confirmada. Tem uma grife. Precisamos de gente da moda.

Todos os nomes foram lidos e aprovados. Não esqueceram ninguém, nem ninguém havia sido cortado. Mas na última lida que Anabel deu, notou algo estranho. “Camilo Andrade”, leu em voz alta. “O que tem ele?”, perguntou Augusto.

–         Amor, você não leu esse nome agora quando passamos a lista.

–         Sim, por que ele é meu convidado pessoal. Você sabe que ele é meu amigo. Mandei-lhe um e-mail e ele respondeu confirmando.

–         Mas amor… pensei que você soubesse?

–         Soubesse o quê?

–         Camilo está morto.

–         Morto? – gritou Augusto.

–         Sim. Há uns cinco meses já.

–         Impossível. Você deve estar enganada, Anabel.

–         Eu tenho certeza. Ele mesmo me disse. Nos encontramos há duas semanas, não lhe contei?

–         Não. Que pena – suspirou Augusto. – Mas Anabel, ele é meu amigo. Não fica bem deixá-lo de fora, mesmo morto.

–         Mas Augusto, talvez ele fique constrangido no meio dos vivos.

–         Que nada. Camilo não liga para isso.

–         Mas e se ele já estiver fedendo ou com um membro descolando do corpo? Já faz cinco meses.

–         Como ele estava quando você o viu?

–         Ainda estava inteiro, só mais magro.

–         Então ainda não deve ter começado a se decompor. Deixe que venha, será como uma despedida.

–         Tudo bem amor, mas não deixe que beba muito. Pode ser que aconteça uma reação química e ela comece a expelir gases.

–         Certo querida, também já tinha pensado nisso.

Na hora marcada os convidados começaram a chegar. Alguns trouxeram bebidas importadas ou sobremesas. Era uma verdadeira exposição de roupas de grife, chaves de carros e celulares que batiam fotos e filmavam. De entrada, um suflê de camarão e histórias sobre viagens de férias.

A cada toque de campainha, Anabel corria sorrindo em direção à porta e os convidados olhavam para saber que era o próximo a chegar. Em seguida, risos, abraços e saudações aos amigos. Foi assim durante todo o início da noite, até a chegada de Camilo. Parecia que Anabel estava adivinhando, pois desta vez ela checou antes, pelo olho mágico. Em seguida correu para a outra porta do apartamento, a que dava acesso pela cozinha.

–         Camilo! – gritou com um sorriso no rosto.

–         Olá, Anabel. – disse ele se aproximando.

Ela disfarçou a cara de desconforto e o abraçou sem muita vontade. Feitas as saudações iniciais, convidou-o a entrar. “Vou chamar Augusto”, e fez sinal com as mãos para ele esperar ali. Camilo colocou uma garrafa de vinho, que Anabel nem tinha notado que ele trazia, em cima da pia e sentou-se num banquinho. Pensou que poderia acender um cigarro e o fez.

Augusto apareceu logo depois e sorriu ao vê-lo. Em seguida lhe deu um abraço apertado.

–         Pensei que não viria mais.

–         É, não estava muito disposto mesmo.

–         Você está ótimo sabia?

–         Ah, para com isso…

–         É sério. Pensei que você já estava em decomposição avançada.

–         E deveria estar mesmo. Não sei por que o processo não começou.

–         Venha, tem muita gente da época da faculdade que vai adorar te ver.

Os dois foram caminhando até a sala, onde os convidados estavam. Houve gritos e saudações. Todos acenaram para Camilo e alguns vieram até ele, para cumprimentá-lo.

Augusto foi com Anabel até a cozinha e deixou Camilo no sofá. Ele estava espremido entre uma mulher gorda e um homem que usava uma camisa rosa e falava afetado.

–         Você não concorda? – perguntou a mulher gorda, de repente.

–         Desculpa. Eu não ouvi sobre o que vocês estavam conversando – respondeu Camilo, após levar alguns segundos para perceber que a pergunta era dirigida a ele.

A mulher gorda o olhou com um certo ar de desprezo. Na verdade estava puta, pois tinha falado durante minutos e aquele homem não havia prestado atenção nela.

–         Tudo bem. Deixa pra lá – resmungou ela.

–         Como quiser – disse Camilo.

O homem de camisa rosa acendeu um cigarro superfino que tinha cheiro de canela.

–         Namorei um cara ano passado – falou ele – Mas ele morreu. Em agosto, eu acho. Então terminamos.

–         Meus pêsames – falou Camilo, desconfiado.

–         Me arrependi, sabe? Fiquei curioso para saber como é depois de morto. Você está me entendendo não é? Estou falando de sexo.

–         Meus Deus, Gustavo – exclamou a mulher gorda, entre risos – Você vai deixar o rapaz sem graça.

–         Ah, me desculpe – falou o homem de rosa – Eu te deixei constrangido?

–         Não. De forma alguma – respondeu Camilo.

–         Ah, então se não tem problema, nos conte – animou-se a gorda – Como é p sexo depois da morte.

–         Não sei – disse Camilo – Desde que morri nunca fiquei com ninguém. Sei lá. As mulheres têm nojo, eu acho. Ou vergonha.

–         Eu não tenho – disse a gorda apertando a coxa de Camilo e sussurrando em seu ouvido.

–         Imagino. Mas tu, eu não como nem morto – disse Camilo se levantando. – Tu também não, visse veado? – sentenciou ele e foi até a cozinha.

Anabel cortava um enorme tender que havia acabado de tirar do forno. Augusto tirou duas latas de cerveja da geladeira e jogou uma para o amigo.

–         Se divertindo? – perguntou.

–         Muito – respondeu Camilo abrindo a lata.

–         Aquela mulher com quem você estava conversando é dona de um dos melhores bistrôs da cidade – disse Anabel.

–         A gorda feiosa? – perguntou Camilo.

–         Não fale assim – censurou a mulher. – Que falta de respeito. Ela tem problemas hormonais.

–         Aquele cara de camisa rosa também tem problema de hormônio. Faltou testosterona.

Augusto riu e Anabel deu uma tapa na sua cabeça. Depois pegou a bandeja de carne e foi até a sala servir os convidados.

–         Não se deu bem com os convidados?

–         Pelo contrário. A gorda queria que eu comesse ela e o veado queria me dar o cu. Estou morto, mas sou o fodão da festa.

–         Você ainda não me contou – disse Augusto, coçando a cabeça.

–         O quê?

–         Como você morreu. Não que falar sobre isso.

–         Ah. Foi suicídio. Logo depois que Amanda me deixou. Tomei um monte de comprimidos. Legal que não deixa marca, né? Se eu cortasse os pulsos ou atirasse na cabeça ia ser uma merda pra sair de casa.

Anabel voltou à cozinha e ficou olhando ao redor.

–         Procurando alguma coisa, meu bem? – perguntou Augusto.

–         O vinho – respondeu ela.

–         Aqui – disse Camilo, lhe entregando uma garrafa.

Apressada, ela pegou a garrafa e voltou à sala. Augusto entornou a lata de cerveja. Ele abriu a geladeira e pegou mais duas. Suas mãos estavam trêmulas.

Camilo também finalizou sua bebida e pegou outra lata.

–         Algum problema, Augusto?

–         Aquela garrafa que você entregou a Anabel… foi a que você trouxe.

–         Sim. É veneno.

Augusto se engasgou com a cerveja e fez menção de que ia correr até a sala, salvar seus convidados e esposa da morte iminente. Mas não o fez. Parou e voltou seu olhar para Camilo.

–         Por que? – perguntou ao amigo.

–         Por que eles merecem. E por que precisam aprender – respondeu Camilo.

–         Todos eles? Até Anabel?

–         Principalmente Anabel. Você sabe muito bem.

Augusto virou a lata de cerveja mais uma vez e pegou outras duas na geladeira.

–         Vamos dar uma volta lá fora – propôs ele.

Camilo assentiu com a cabeça.

Passaram pela sala. O lugar estava e silêncio. Corpos espalhados pelos sofás e pelo carpete.

–         Daqui a quanto tempo eles acordarão? – perguntou Augusto.

–         Só amanhã de manhã.

–         Eu não deveria tomar veneno também?

–         Se você quiser, eu te arrumo – respondeu Camilo.

Desceram às escadas e caminharam pelas ruas, onde havia mais gente morta do que viva.

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