Uma troca justa

Enquanto preparava um marguerita para uma linda garota ruiva, Pablo percebeu que já era barman há tempo demais. Foi como uma epifania. Bem ali, ao lado de garrafas de rum, vodka, gim, cachaça. Um momento de reflexão, bem na hora em que misturava tequila, contreau e suco de limão. E gelo picado, claro. Era hora de dar um rumo na sua vida.

A ruiva sorriu. Para o drink, não para ele, e voltou para a pista de dança. Um cara alto e forte, usando uma camiseta regata, a abraçou e a beijou. Ela usava um vestido curto que subiu e deixou parte da bunda de fora. Nos dois anos que trabalhara naquela boate, Pablo só tinha conseguido mulheres solitárias, de meia-idade, que pagavam por sexo. Ele precisava de dinheiro.

Aliás, ele precisava muito de dinheiro. Dois aluguéis atrasados, fora o condomínio.

– Tem cliente chamando – disse o outro barman.

Um homem sentado na última cadeira do balcão acenava com um lenço. Pablo foi até ele, anotou seu pedido no cartão de consumação e caminhou até o freezer. Voltou trazendo uma cerveja long neck, enrolada em um guardanapo.

– Você trabalha aqui há muito tempo? – perguntou o homem.

– Sim, senhor. Dois anos. Primeira vez que vem aqui?

Pablo também saía com homens. Não gostava, mas às vezes algumas situações pedem medidas drásticas.

– Sim, primeira vez. Estou adorando.

Era um homem de mais ou menos 40 anos. Cabelos e barbas grisalhos e um brinco de argola na orelha esquerda. Falava de um jeito afeminado.

– Francis. Muito prazer – disse ele, estendendo a mão direita.

– Pablo. E o prazer é meu.

Pablo sentiu Francis acariciar sua mão. Ele sorriu e voltou para o outro lado do balcão. Pensou que devia engolir seu orgulho e sua masculinidade por algumas horas com outro homem. Já tinha feito isso antes. Dinheiro. Ele precisava muito.

Francis continuou no mesmo lugar, durante a noite toda. Fazia questão de sempre ser atendido por Pablo. Tinha tomado 7 cervejas.

– Você sai de que horas? – perguntou ele, após pedir a oitava cerveja.

– Daqui a pouco.

– Vai para casa?

– Não sei. Tem idéia melhor?

Eles combinaram de se encontrar no fundo da boate. Eram duas da manhã quando Pablo saiu. Francis ainda não estava lá. Ele acendeu um cigarro e ficou fumando encostado num poste. Francis saiu, antes de ele terminar o cigarro.

– Desculpe a demora. Tinha um bêbado na minha frente na fila que não conseguia achar o cartão de crédito – disse o velho, sorrindo.

– Tudo bem – respondeu Pablo.

– Meu carro é esse – disse Francis, apertando o alarme.

Um carro importado, que Pablo não sabia a marca. Mas sabia que era caro. O velho tinha dinheiro.

Eles entraram e Francis ligou o ar condicionado e o som. Estava sintonizado numa estação de rádio que toca músicas românticas durante a madrugada. The Housemartins, com o seu clássico Build, faziam a trilha sonora daquele encontro. Francis acariciou a perna de Pablo, puxou o freio de mão e ligou o carro.

– Quantos anos você tem?

– Vinte e sete.

– Parece menos – disse Francis.

– Quanto você paga? – perguntou Pablo.

– Ah, então você não é gay? – disse Francis, ironizando como se estivesse decepcionado.

– Não. Sinto muito – disse Pablo.

– Tudo bem. Diga-me quanto você cobra.

– Cem reais. É que eu estou precisando de dinheiro.

– Tudo bem. Vou te dar duzentos.

– Obrigado.

Os dois ficaram em silêncio até chegar ao prédio onde Francis morava. Ele desceu até garagem e estacionou ao lado de outro carro importado, que ficava numa vaga com o mesmo número do seu apartamento.

– Esse carro também é seu?

– Esse é da minha esposa. Agora vamos. Temos que ser discretos.

Eles caminharam rápido. Francis olhava para os lados, desconfiado. Pegaram o elevador de serviço e subiram até o 14º andar.

O apartamento era grande e luxuoso. Na sala, havia um sofá imenso, uma televisão de plasma, um aquário e um bar enorme.

– Use suas habilidades. Eu gostaria de um Cuba Libre. Esse é fácil, não?

Pablo pegou uma lata de coca-cola num frigobar que ficava embaixo do balcão e misturou o refrigerante com uma grande dose de Bacardi. Para si mesmo, serviu uma dose de Chivas Regall com água tônica e gelo.

Ele caminhou até o sofá, onde Francis enfileirava algumas gramas de cocaína numa pequena mesa. Pablo lhe entregou seu drink.

– Você gostaria? – perguntou o velho, apontando para a droga. – Aproveite enquanto é jovem.

– Não, obrigado – respondeu Pablo.

– Mas se importa que eu use?

– A casa é sua.

Pablo deu um gole no uísque e caminhou o aquário. Havia uns peixes muitos coloridos que ele nunca tinha visto. Distraiu-se por alguns segundos, olhando os bichos. Então, ouviu umas passadas rápidas.

Nesse instante, uma faca penetrou no lado esquerdo da sua cintura e ele largou o copo no chão.

Enquanto tentava tirar a faca, levou outro golpe no ombro direito. Dessa vez, a lâmina entrou até atingir o osso. Por fim, ele caiu sentado. Tentou se levantar e foi golpeado mais uma vez. Agora na cabeça. Por algo muito pesado. Sua vista escureceu e ele desmaiou na poça de Chivas e água tônica.

Deveria ter acordado cheirando a bebida e sangue, mas ao invés disso exalava um perfume maravilhoso.

As feridas não doíam mais.

Estava deitado em uma cama macia e confortável. O quarto era imenso. Tudo era relaxante.

Ele se sentou na cama e havia uma mulher parada na porta. Uma jovem muito bonita e que sorria para ele.

– Veja bem – ela disse – isso tudo agora é seu.

– Meu?

– Sim. Incluindo meu carro lá na garagem.

Seus olhos eram azuis.

– Sabe – continuou ela. – no começo talvez você estranhe. Mas no final vai ver que foi uma troca justa.

A jovem, então, foi embora. Antes da porta se fechar, Pablo viu, de relance, alguém esperando por ela no corredor. Alguém quem ele conhecia muito bem. Melhor do que ninguém.

Pablo se levantou e caminhou até o banheiro. No espelho da pia, ele reconheceu seu rosto. Mais ou menos 40 anos. Cabelos e barbas grisalhos. Um brinco de argola na orelha esquerda.

Então, após urinar, foi até a sala. As chaves do carro estavam na mesa. Ele olhou para o sofá imenso, para a televisão de plasma, para o aquário e para o bar.

Afinal, tinha sido mesmo uma troca justa.

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