Os pesadelos estão onde devem estar

Quadro Homem Velho Solitário, de Vincent Van Gogh

 

Os pesadelos vieram com os cabelos brancos, as rugas e as dores nos ossos. Como se uma velhice solitária, por si só, já não fosse um tormento, Sorato ainda passava por essa provação. Os pesadelos começaram a surgir há pouco menos de 1 ano. Ele tinha 64 agora e vivia sozinho em um apartamento pequeno, sujo, quente e com as paredes cobertas por recortes de jornais antigos.

Sonhos. Talvez ele tivesse tido algum durante a infância, a adolescência, ou a juventude, mas nada que permanecesse muito tempo após ele acordasse. Mas agora, eles não se dissipavam. Ficavam ali. Literalmente, ficavam ali.

Nos primeiros sonhos ele era uma criança. Em um deles, Sorato havia amarrado um gato na árvore. Então tocava fogo nele, após ensopá-lo com gasolina. Quando Sorato despertou, o cheiro do combustível lhe perseguiu o dia inteiro.

Depois ele sonhava que era adolescente. Em alguns pesadelos, Sorato batia na mãe até ela desfalecer. Ele usava um soco inglês na mão direita e gargalhava. Quando acordava, estava coberto de sangue que não era dele.

Já adulto, em seus sonhos, assassinava prostitutas. Ele as contratava na avenida e as estrangulava no banco de trás do seu carro. Eram os anos 70. Os sonhos se repetiam. Loiras, ruivas, negras. Seu carro era uma Brasília cinza. Ele acordava e ficava o dia inteiro com as almofadas do sofá nos ouvidos, tentando abafar os gritos que continuava escutando mesmo depois do sonho terminar.

Sorato desceu até a padaria para tomar café. Andreza lhe serviu um preto bem forte e doce. Ele tomou alguns goles e suspirou.

– Ainda tendo problemas com sonhos? – ela perguntou.

– Pesadelos.

– O quê?

– Não são sonhos. São pesadelos – ratificou o velho.

– Ah. Tudo bem. Enfim, quer falar sobre isso? Você teve algum ontem à noite?

Sorato contou de uma mulher que ele esfaqueou num quarto de motel. Ele ainda a escutava chorar, ali mesmo, dentro da padaria.

– Uau – disse a garçonete, olhando ao redor, como se tentasse ouvir o choro também.

O velho tomou mais um gole de café.

– E você ainda não procurou um psicólogo? – perguntou ela. – Nem um padre? Pastor evangélico também pode servir.

– Não. Ninguém serve – respondeu Sorato, após dar o último gole em seu café.

Então se levantou e foi embora. A visita diária à Andreza era boa para desabafar, mas ele não ia lá à procura de ajuda. Havia uma coisa que ele nunca contara à garçonete. Não eram simplesmente pesadelos. Eram lembranças, memórias. Era real. Era como viver tudo de novo em flashbacks noturnos.

Sorato subiu as escadas e chegou sem fôlego ao seu apartamento. Ele nunca soube por que aquelas lembranças haviam voltado em seu sono. Mas sabia que merecia. Era castigo, punição. Ele deitou-se na cama e acendeu um cigarro. A fumaça escura tomou conta do apartamento. Sorato ficou pensando que lembrança viria da próxima vez. E resolveu que não queria saber.

No dia seguinte, ele não foi à padaria. Nem no dia conseqüente, nem em nenhum dia daquela semana. Os vizinhos sentiram o cheiro, alguns dias depois, e chamaram a polícia. Sorato estava sentado no chão do banheiro com os pulsos cortados.

Os recortes de jornais nas paredes falavam sobre uma série de assassinatos nos anos 70. Andreza foi chamada na delegacia e o delegado lhe mostrou as notícias que a polícia tinha confiscado. Ele perguntou se ela sabia de alguma ligação entre elas e o velho. O nome de Sorato não aparecia em nenhuma matéria. Mas os pesadelos dele estavam todos lá.

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