Penitência

Foto: Edgar Rocha

Padre Alencar acordou no meio da noite. Coisa difícil de acontecer. Seu sono era pesado. Preguiça era um dos seus pecados, mas não o único. Ele saiu do quarto seguindo os passos que o fizeram despertar. As luzes não acendiam, então ele pegou uma velha lanterna na cômoda. Estava frio e seus ossos reclamavam enquanto ele caminhava. Passou pela sacristia, pelo altar e parou no meio da capela. As velas dos castiçais estavam acesas. Não por ele, já estava assim quando chegou. Devia ser estranho, mas não era. Ele se sentia como em um sonho, onde mesmo o que não fazia sentido parecia normal.

Então, de repente, ele não ouvia mais os passos. Mas sim, um chiado que ecoava pela igreja toda.

– Aqui, padre – disse uma voz grave.

Então toda a áurea de sonho desapareceu e padre Alencar sentiu medo. As velas se apagaram e o local foi tomado pela escuridão. Ele segurava a lanterna com as mãos trêmulas. O feixe de luz passou por alguns instantes pelas paredes igreja, iluminando as imagens dos santos.

Ele viu aqueles rostos esculpidos em barro e eles pareciam observa-lo, como uma platéia de uma tragédia grega. Rostos serenos e nada reconfortantes.

A chiado continuava ecoando.

– Quem está aí? – perguntou padre Alencar. – Vou chamar a polícia – ameaçou ele.

– Aqui, padre. Não vou chamar de novo – respondeu a voz, autoritária.

Padre Alencar apontou a lanterna em direção ao confessionário.

– O que você quer? – perguntou ele.

Ninguém respondeu. O Padre caminhou até lá. Pelas frestas da estrutura de madeira viu alguém se mexendo lá dentro. Ele entrou no confessionário e apontou a lanterna em direção da pessoa.

– Apague isso – disse o homem.

A luz iluminou o interior do confessionário por apenas um segundo, ou talvez menos. Mas Padre Alencar viu o rosto daquele homem. Era branco como cera e havia insetos onde deveria haver pelos. Seu cabelo, suas sobrancelhas e a barba eram amontoados de coisas que se mexiam e chiavam. E mesmo com todo aquele adorno repugnante, padre Alencar o reconheceu.

– Ouça minha confissão, padre. Depois me dê a penitência justa.

Então o padre desligou a lanterna e se encostou.

Durante os minutos seguintes ele ouviu algumas histórias. Um menino forçado pela mãe a ir à igreja. Ele chorava, mas não dizia por que tinha tanto medo. Sua mãe bateu nele e o obrigou a ir. Atrás da capela um seminarista o colocou no colo e o beijou, apertando sua cintura magra com suas mãos fortes.

Outro caso era o de um menino pobre que cuidava do canteiro da igreja para ajudar sua mãe doente. Um dia, o novo vigário da paróquia bateu nele. Um soco forte que cortou seu supercílio. Isso por que o menino mordeu seu pênis, quando, sufocado, tentou de tira-lo de sua boca pequena, de criança.

Ainda escutou outra história sobre outro menino que bebeu vinho pela primeira vez e pegou no sono. Acordou de bruços, por baixo do velho padre que o batizara e lhe tinha dado a primeira comunhão.

Padre Alencar lembrava-se de cada um dos meninos. Mas quando sua mente voltava no tempo e revia os acontecimentos narrados pela voz daquele homem, os meninos tinham rostos diferentes. Seus cabelos, suas sobrancelhas e seus ralos pêlos pubianos eram amontoados de coisas que se mexiam e chiavam.

– Qual é minha penitência, padre? – perguntou a voz grave.

O velho vigário abaixou a cabeça, como fazem os derrotados. Foi quando sentiu algo subindo pelas suas pernas e, assim que ergueu a batina, viu centenas de formigas subindo pelas suas canelas.

– Que penitência merece a tentação em pessoa? Estou curioso – disse a voz, sem disfarçar o sarcasmo.

Padre Alencar abriu a porta do confessionário e correu sacudindo sua batina. Agora eram abelhas que pousavam em sua cabeça e grudavam nos poucos cabelos que lhe restavam. Algo úmido saía pelos seus ouvidos. Ele enfiou os dedos nas orelhas e puxou minhocas do tamanho de terços de dentro delas. Ele cuspiu uma, duas, e então, várias aranhas.

– Vá em paz, eu gostaria de dizer. Mas não posso – disse o homem, parado arás dele.

Novamente da capela estava iluminada pelas velas. E padre Alencar pôde ver os rostos de todos os santos. Ele implorou por ajuda, mas a única coisa que ouviu foi um som que parecia um bater de asas.

Em sua agonia para se livrar dos insetos, tropeçou em um dos bancos de madeira e caiu. Seu braço direito tentou segurar em um dos castiçais, mas vacilou e padre Alencar caiu de cara no chão. Sua vista escureceu aos poucos e antes de ser dominado pela escuridão, gritou para os céus jurando arrependimento e pedindo por perdão. Mas ele soube que não tinha sido ouvido, assim que uma enorme nuvem de gafanhotos invadiu a capela, quebrando as vidraças, e voando em sua direção.

Padre Alencar teve um derrame naquela noite. Assim contam os médicos. Ele foi enterrado no cemitério que fica atrás da igreja. Em sua sepultura, o epitáfio diz que ele foi “um bom pastor para seu rebanho”. E assim ele será sempre lembrado.

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