Antonio o Câncer

Foto: Joseph Mitchell (1908-1996)

Antonio não queria deixar a cidade, mas a cidade queria que Antonio fosse embora. Ela deixava isso bem claro. O tempo todo. Ele sentia isso no clima, no cheiro, nas pessoas, na forma como os prédios lhe cercavam, no jeito como as ruas faziam ele se perder. Ele nunca entrava ninguém nem nada que queria. A cidade gritava com ele através de buzinas de carro e músicas nos bares. E vomitava através de fossas abertas e canos estourados. Antonio a fazia se sentir mal.

Então, a cidade queixava-se com ondas de calor, chuvas torrenciais, deslizamentos de barreiras, incêndios, engarrafamentos e atropelamentos. Antonio era um tumor que a cidade tentava expelir, desesperadamente. Ele sabia disso, mas não queria ir embora. Não que ele gostasse de lá, mas não tinha nenhum outro lugar para onde ir.

Em uma manhã de terça-feira, Antonio foi encontrado no chão do seu quarto. Ao lado do corpo, uma garrafa de vinho barato e uma cartela vazia de comprimidos para dormir. Naquela manhã de terça-feira, o sol brilhou como nunca.

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