F.P. Martins, Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 1887

Oi, Regina. Desculpa se demorei a dar notícias, mas é que só agora tive tempo de parar e escrever com calma. Bom, o que posso dizer para começar? Melhor contar do início. Minha chegada aqui foi tranqüila, na medida do possível. Houve um pequeno confronto no dia anterior, próximo daqui, mas a terça-feira em que atracamos no porto foi sossegada. Um clima de tensão estava no ar, como era esperado, mas mesmo assim não houve nenhum incidente. Chegamos por volta das oito da noite e fomos, imediatamente, levados aos nossos aposentos. Depois jantamos no refeitório. Serviram uma macarronada, que nem de longe, se compara ao sabor da que você faz aos domingos. Após comer, nos retiramos aos nossos aposentos.
Preciso te dizer, Regina, alguns dos soldados que vieram comigo são muito jovens, minha irmã. Dá para ver o medo em suas faces. Andam apressados e com os olhos arregalados. Ansiosos, como eu fui um dia. Em outra situação, eu poderia assumir o papel de homem experiente e tentar passar algumas lições a eles. Mas receio não ter tempo para isso. Estamos perdendo essa guerra, minha irmã. A capital do nosso país, outrora um paraíso tropical, corre o risco de ser devastada por essas coisas. Coisas que entram em nossas mentes, como você mesma sabe, já que as notícias percorreram todo o Brasil e outras partes do mundo. Os jornais os chamam de vampiros invisíveis e, ao que parecem, eles realmente começaram o ataque pela cidade de São Paulo. Quem esteve lá, conta que tudo foi devastado. Muitos estão morrendo, pois como soubemos, eles envenenam a água que bebemos. E não há como identificar se ela está pestilenta ou não. Nada muda em sua cor, cheiro ou sabor. O mesmo, dizem, eles fazem com o leite.
Nos três dias que se seguiram, meu batalhão percorreu alguns quilômetros pela orla. Felizmente não nos encontramos com nenhum dos monstros. Só hoje, sábado, tive tempo de lhe comunicar minha situação. Por hora, está mais ou menos tranqüilo. Sinto um clima tenebroso pairando sobre nós. Te digo desse jeito, pois sei que não preciso mentir nem lhe esconder nada. É melhor que fique ciente da gravidade da situação. É chegado o tempo de todos temerem, minha irmã, pois aquilo que só se vê em sonhos agora tenta tomar nossa terra.
Um grande beijo, minha irmã. Rogo para nos encontremos novamente.

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2 respostas para F.P. Martins, Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 1887

  1. Andreane disse:

    Quando eu crescer, quero ser Geraldo de Fraga 🙂

  2. Muito bom.Parabéns! 😀

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