Amargura

Basicamente, existem dois tipos de consumidores de álcool. Aqueles que bebem com satisfação, que saboreiam um bom malte ou uma boa Pale Ale, que se deliciam com o sabor da bebida e celebram a companhia dos amigos. Do outro lado, encontramos os bebedores amargos. Aqueles que bebem para esquecer aquilo que lhe corrói a alma, a mente ou o coração. São os que se entregam ao álcool como se ele fosse um purgante que irá expelir tudo o que mais lhe aflige.

Cantarelli fazia parte desse segundo grupo. Naquela noite de quinta– feira feira, ele bebia sozinho em uma mesa próxima à janela. Estava no primeiro andar do bar e observava lá de cima as pessoas passando pela rua. Chovia fraco, mas o suficiente para aumentar ainda mais o clima de melancolia. Cantarelli bebia uísque 12 anos. Dinheiro não era problema. Outra coisa era o problema.

Após um gesto seu, o garçom se aproximou trazendo a quarta dose. O uísque descia mais suave agora, mas nem por isso Cantarelli estava menos amargo. Da janela, ele invejava pessoas que nem conhecia e nunca tinha visto. Ele invejava qualquer pessoa que não fosse ele.

Cantarelli tinha 41 anos, completados naquela noite e seu copo era sua única companhia.

Os dois outros únicos fregueses pagaram a conta e foram embora.

Do balcão, alguém o chamou. Ele olhou em sua direção.

– Você não o filho daquele senhor? Esqueci seu nome – falou o barman. Um homem velho e gordo.

Cantarelli fez que não com a cabeça e voltou– se para a janela. Então ouviu passos. O barman estava ao seu lado.

– Tenho certeza que é você. Não me engano com essas coisas –  disse, sorrindo. – Vocês moravam na rua…

Então o barman parou de falar. Olhou para Cantarelli com espanto e voltou para o balcão sem dizer uma palavra. O homem que bebia uísque tranquilamente próximo a janela havia lhe mostrado um sorriso peculiar. Sua boca se abriu até as orelhas e ele exibiu uma centena de dentes afiados.

Cantarelli fez mais um sinal para o garçom e voltou– se para a janela. Do outro lado da rua havia uma garota parada em baixo de marquise. Usava uma saia preta e uma camisa azul. Ainda chovia e ela colocara os braços ao redor do corpo para passar o frio. Algo despertou dentro dele.

– Conhece aquela mulher? –  perguntou ao garçom.

O jovem colocou a dose de uísque na mesa e foi até a janela. Desembaçou o vidro com a manga da camisa e tentou enxergar através da chuva.

– Não consigo ver direito –  falou.

– Ela tem a pele branca, cabelos negros, usa um brinco no nariz e tem uma tatuagem no antebraço esquerdo –  disse Cantarelli.

– Porra – falou o jovem, espantado. – Enfim, eu conheço. Não sei seu nome, mas ela é garota de programa. Aparece sempre por aqui.

Cantarelli tomou a dose recém chegada de um gole só e deixou o dinheiro da conta em cima da mesa. Desceu às escadas apressado e chegou até a rua. A chuva havia engrossado. A garota estava lá do outro lado, conversando com alguém em um carro. Cantarelli hesitou por alguns segundos, mas o carro partiu e a garota continuou na calçada.

Ele atravessou a rua e parou ao lado dela. A garota tentava acender um cigarro com uma caixa de fósforos ensopada, então Cantarelli lhe ofereceu um isqueiro. A chama perto do seu rosto revelou sua natureza. Ela tinha olhos de gato e sua pele era escamosa e púrpura.

– Obrigado – respondeu ela em uma língua que Cantarelli não ouvia há anos.

– Alguém da realeza como você não devia fazer isso –  disse ele.

– Não faço por dinheiro. Faço por prazer.

– Que prazer há em vender– se para essa gente?

– O prazer da carne. O prazer de ser desejada.

– Vem comigo.

Ele a pegou pela mão e fez sinal para um taxi. Os dois entraram e sumiram no meio da noite.

Na saída do bar, o barman e o garçom haviam acompanhado toda a cena.

– Malditos demônios. Estão em toda parte – resmungou o velho. – Vamos fechar essa merda e ir pra casa, antes que apareçam outros.

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2 respostas para Amargura

  1. Mauro disse:

    E aê, Gera! De mudança? Beleza, vou acompanhar por aqui também!

  2. Júlio César disse:

    Eu sou do primeiro grupo, ora minhas bolas!

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