Cruz do Patrão

Versão original do conto que eu escrevi para o livro “Malassombramentos: os arquivos secretos d’O Recife Assombrado”.

 

Foto: Pedro Valadares

 

 

Na Cruz do Patrão

A luz da lua cheia iluminava o enorme homem negro parado em frente à coluna. Ele era alto e forte, e sua pele muito escura. Aquele foi o primeiro a aparecer. Depois, pouco a pouco, outros mais foram surgindo. A cada piscar de olhos, uma nova figura chegava. Uma multidão começou a surgir do nada. Homens, mulheres e crianças. Todos nus e tão escuros quanto sombras.

O nome do menino era José. Ele tremia de medo e não conseguia se mexer. E ali, naquele lugar ermo, em uma noite de lua cheia, os fantasmas de um passado muito distante vinham se mostrar. Ele estava bem próximo da coluna onde ficava a cruz. E entre o garoto e a antiga construção estava um exército de almas de outro mundo.

As assombrações não faziam som algum. Os gritos que ele ouvia, naquele momento, eram dos seus amigos que estavam bem atrás dele. José não conseguia entender o que os meninos gritavam. Toda a sua atenção estava voltada para as figuras negras que formavam uma verdadeira barreira na sua frente. E, aterrorizado, ele não conseguia sair do lugar.

Algumas horas atrás, um pouco antes de escurecer, ele e mais três amigos estavam no bairro do Recife tomando banho na maré. Foi quando um deles propôs uma aposta. Quem teria coragem de ir até depois do porto e tocar na Cruz do Patrão. Os outros, assim como aquele que fez o desafio, morriam de medo da Cruz. Mas José sempre gostou de se amostrar. Ele bateu no peito e disse que topava o desafio. O feito, se alcançado, lhe renderia 10 bolas de gude, um badoque e um peão, todos de propriedade dos outros meninos. Caso José não conseguisse tocar na cruz, dividiria suas coleção de pipas com os demais.

Assim resolvidos, os quatro amigos caminharam em direção ao porto do Recife. Para burlar a segurança, aproveitaram a maré seca e foram por dentro do mangue. Era o modo mais seguro de entrar no porto sem ser visto pelos vigias. O caminho não era tão longo, mas por dentro da lama eles levaram mais tempo do que o normal. Sendo assim, já estava completamente escuro quando alcançaram o local onde estava a antiga coluna. No topo dela, ficava a cruz do patrão, que há muito tempo atrás servia de baliza para os navios que entravam no porto.

Mas não era essa história que transformava aquela construção e aquele lugar em algo aterrorizante. Não a cruz, por si só. Não ela, lá parada, imóvel, resistente ao tempo. O que havia sido feito perto dela, por homens tão cruéis como o próprio demônio, era o que trazia maldição àquele sítio.

O mau agouro começou nos tempos dos escravos. Os negros que morriam nos navios eram enterrados bem ali. Nada de cemitério ou enterro cristão para os pagãos, considerados selvagens pelos brancos. Mas mesmo sem batismo, eles tinham almas. E seus espíritos, assim como seus restos mortais, ficavam ali para sempre.,

Depois vieram mais histórias. Mortes misteriosas, homens brutalmente assassinados, uns pelos braços da lei, outros pelos marginais que rondavam aquela área deserta da cidade. Era um chão manchado de sangue aquele. Um chão onde ninguém descansava em paz.

Também havia ali, o encontro dos que faziam catimbó. Pais e avós diziam para as crianças ficarem longe daquele povo. Aquilo não era coisa de gente clemente a Deus. Diziam que o povo da macumba matava galinha e bode para dar de comer ao diabo e que um dia ele apareceu de verdade. Soltando enxofre, ele correu atrás de uma negra do toutiço gordo e sumiu com ela para dentro da água.

Por tudo isso, dito há várias gerações, eram poucos aqueles que se atreviam a ir ali durante a noite. E alguns, inclusive,morriam de medo até durante o dia. Mas lá estava José, disposto a caminhar até a cruz e provar que tinha mais coragem do que qualquer garoto, e mais até do que alguns homens feitos e com barba na cara.

Os outros três pararam próximo a uma fileira de pedras e disseram que de lá não passariam. José teria que seguir sozinho a partir daquele local. O menino então suspendeu as calças, prendeu a respiração e caminhou a passos largos rumo ao seu destino.

Sua pisada era forte e suas passadas rápidas. Estava com medo, bem verdade, mas repetia em sua mente que não havia fantasma, nem qualquer alma do outro mundo por ali. Foi quando de repente a figura negra apareceu. Primeiro era um vulto em meio à escuridão, depois tomou forma de homem em frente ao menino.

Então, os outros foram surgindo. Alguns tinham marcas pelo corpo, marcas de feridas, e manchas de sangue. Cada um possuía alguma, diferente uma das outras. Mas uma coisa os tornava parecidos. Todos os rostos, inclusive os das mulheres e os das crianças, eram tristonhos. “Não havia sorrisos no além”, pensou José.

Enquanto observava os detalhes daquela visagem, o menino foi se acalmando. Ele notou que não havia nenhum sentimento ameaçador ali. Apesar da visão fantasmagórica, uma sensação de paz se fazia presente. Em nenhum momento, as assombrações ameaçavam correr a trás dele.

Os outros garotos continuavam a gritar, mas José não conseguia entender o que eles diziam, nem por que suas vozes pareciam tão distantes. Ele sabia que seus amigos estavam próximos, mas era como se o som viesse de um lugar muito, muito além. Como se ali, onde José estivesse com os fantasmas, fosse um outro local longe de tudo.

De repente, os gritos cessaram. Então, o menino olhou para trás e viu seus amigos correndo em disparada. Todos eles partiram em direção ao mangue e se jogaram dentro da lama. Parecia que eles estavam fugindo de algo assustador. Quando José se deu conta, uma mão segurava seu braço.

Para surpresa dele, não era nenhum dos fantasmas. Era um dos homens que tomavam conta do porto. Um sujeito já velho e com boa parte dos dentes podres. Pelo hálito fedorento, José percebeu que ele estava bêbado e, então, tentou se soltar aproveitando a condição do homem. Mas mesmo embriagado e velho, ele era forte. E com um empurrão, jogou José no chão.

Assim que o menino caiu, o homem puxou seu cinto. Disse que bateria nele até ele sangrar, pois só assim não voltaria jamais ao porto. José pôs as mãos para cima, a fim de proteger o rosto das chicotadas. Mas algo aconteceu, nesse instante. Uma ventania começou a soprar. E junto com o vento, vieram todos os fantasmas na direção do agressor. Eles gritavam e falavam em línguas estranhas, que José não conseguia entender.

Nem deu tempo de o homem olhar para trás. O vento o atingiu nas costas e o ergueu a poucos metros do chão. Vários braços negros o suspenderam no ar como uma folha. O homem não reagiu, nem gritou, estava imóvel. Então as assombrações desapareceram como fumaça, e o seu corpo despencou. Ele aparentemente já estava desacordado antes de cair, e assim permaneceu depois de bater no chão.

José não sabia o que lhe tinha dado mais medo, se a surra que estava para levar ou os fantasmas. Mas se tinha uma coisa que ele sabia era que precisava ir embora dali o mais rápido possível. Só que antes de ir embora, ele cumpriu a promessa. Caminhou até onde disse que iria e tocou na cruz do patrão.

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Os 15 melhores filmes de 2011

15. Ataque ao Prédio

14. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

13. O Vencedor

12. O Discurso do Rei

11. Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas

10. Bravura Indômita

9. Cisne Negro

8. Red State

7. Super 8

6. Quero Matar Meu Chefe

5. X-Men – Primeira Classe

4. Rango

3. Capitão América

2. Planeta dos Macacos – A Origem

1. Os Olhos de Júlia

Filmes que criaram expectativas e decepcionaram:

A Bela Adormecida

Paul

Filmes que pareciam ser umas merdas e realmente foram:

A Serbian Film

A Centopéia Humana 2

Filmes para os quais eu caguei:

Melancolia

A Pele que Habito

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Mallorca

 

Em uma tarde de quarta-feira, tive um desejo incontrolável de entrar em uma casa lotérica. No dia seguinte, eu era o mais novo milionário do país. Acertei os 6 números da mega-sena. Fui até a Caixa Econômica e abri uma caderneta de poupança com os 32 milhões de reais. O gerente só faltou lamber meu saco.

Isso aconteceu há 4 anos. Durante todo esse tempo em que caguei dinheiro, viajei o mundo todo, comi uma centena de putas, cheirei uma infinidade de gramas e fumei outras tantas. Torrei dinheiro como se não houvesse amanhã.

Mas mesmo durante toda essa farra, não me saía da cabeça a forma estapafúrdia como eu havia ganhado esse prêmio. Nunca havia apostado em nenhuma loteria durante toda a minha vida. Nem em jogo do bicho. E, de repente, eu acerto na mosca na mega-sena. Como poderia ter tido tanta sorte?

A resposta veio numa manhã de sábado, em um quarto de hotel em Mallorca. Mesmo tendo enchido a cara de vinho no dia anterior, me lembro perfeitamente de ter ido para a cama com uma loira aliciada pela gerência do hotel. Mas quando acordei, ela não estava mais lá.

Levantei-me com uma dor de cabeça infernal e vesti o roupão que estava jogado ao lado da cama. Abri o frigobar e bebi quase meio litro de água. A suíte tinha vista para o mar e a brisa do atlântico entrava pela janela aberta. Era espetacular ser rico.

– Espetacular – disse uma voz atrás de mim, como se lesse meu pensamento.

Tomei um susto e me virei de um pulo só.

Sentado no sofá da suíte, havia um homem. Um sujeito que aparentava ter minha idade, 26 anos, e que usava um terno branco. Tinha cabelos pretos, lisos, penteado para trás. Estava descalço e fumava uma cigarrilha marrom que expelia um cheiro de cravo. Eu sabia que nunca o tinha visto, mas ele tinha um ar familiar.

Corri até a porta, mas ela estava trancada. Gritei pelos meus seguranças que deveriam estar de plantão na entrada do quarto, mas ninguém respondeu.

Apesar do meu descontrole, o homem continuava sentado no sofá, de pernas cruzadas, fumando sua cigarrilha.

– Ninguém vai vir – disse ele apontando para o enorme relógio que estava pendurado na parede.

Os ponteiros não se mexiam. Corri em direção à varanda e olhei para o playground do hotel. Lá embaixo, os hóspedes pareciam estátuas. A brisa do mar sumira. O tempo havia parado.

– Tem um resto de vinho naquela garrafa – ele apontou para a mesa. – Sirva-me uma taça.

Dando-me ordens daquele jeito, achei que o sujeito estivesse armado. Então, obedeci. Servi duas taças. Fiquei com uma e lhe entreguei a outra.

– Quem é você? Se quiser dinheiro, eu não tenho muito aqui comigo, mas tenho algumas jóias.

– Se não tivesse sido eu próprio o autor dessa artimanha, eu estaria realmente surpreso de você não se lembrar de mim – disse o homem, erguendo uma sobrancelha.

– Que artimanha? Do que está falando?

– Foi um dos seus pedidos. “Apague da minha mente, esse acordo. Quero viver sem saber que, um dia, esses quatro anos acabarão dessa forma.”

­– Como assim “dessa forma”? – perguntei.

Então, ele estalou os dedos e tudo ficou escuro como se tivesse anoitecido. A televisão ligou sozinha. E, lá dentro, sentados em uma mesa, estávamos nós dois.

– Assine aqui – disse o homem dentro da TV, apontando para uma folha de papel.

As mãos do “eu” da TV tremiam, mas mesmo assim o contrato foi assinado.

– Apague da minha mente, esse acordo. Quero viver sem saber que, um dia, esses quatro anos acabarão dessa forma – falei, na Televisão.

E, então, as lembranças surgiram em minha mente. Larguei a taça de vinho que estava em minha mão. Logo em seguida a dor começou.

 

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Glossário – Histórias que nos Sangram

A proposta do livro “Histórias que nos Sangram” (Editora Multifoco) é dar novas versões às lendas do Recife, associando com o período histórico em que surgiram. Para isso eu citei vários fatos da história da cidade nos sete contos que integram o livro. Alguns leitores passaram batidos em alguns fatos e outros nem se ligaram. Como essas informações são de vital importância para se entender totalmente as histórias, eu resolvi fazer um pequeno Glossário, explicando algumas coisas do livro.

Glossário – Histórias que nos Sangram

Sua Cabeça Como um Troféu

Pág. 16 e 17

A cabeça a qual Lima se refere é de Zumbi dos Palmares. Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1694, teve a cabeça cortada, salgada e levada, com o pênis dentro da boca, ao governador Melo e Castro. Em Recife, a cabeça foi exposta no pátio do Carmo, visando desmentir a crença da população sobre a lenda da sua imortalidade.

Pág. 20

O Mal da Bicha citado foi a primeira manifestação de febre amarela no Brasil. Começou no porto do Recife em 1685.

Quem Ama Não Tem Coração

Pág. 35

Lugarú é um termo que é uma corruptela da palavra francesa loup-garou. Essa lenda se estende pelas ilhas do Caribe. Dizem que para prevenir que o lugarú entre ou saia de um local é só colocar areia na porta. E que se algum bruxo jogar um feitiço nele e matar um cão, ele é obrigada a contar todos os pelos do animal.

Alamoa é descrita como um duende feminino que aparece principalmente na ilha Fernando de Noronha. É uma mulher branca, loura, nua, tentando os pescadores ou caminhantes retardados. Transforma-se num esqueleto, enlouquecendo o enamorado que a seguiu.

Pág. 37

A “sedição” a qual a mulher se refere é a Guerra dos Mascates. Na época em que se passa a história tal evento ainda não tinha essa dominação, era apenas chamado de sedição. A guerra só começou a ser chamada por esse nome em 1873, quando foi publicado o livro “A Guerra dos Mascates” de José de Alencar.

Os Dentes Dos Mortos

Obs: Essa história é baseada na lenda do fantasma conhecido como Boca de Ouro.

Pág. 42

A Casa dos Expostos era um abrigo para jovens de rua, fundado em 1789, e que ficava na rua da Roda, centro do Recife.

Pág. 43

Beco do Tambiá era onde funcionava o baixo meretrício da cidade na época em que se passa a história. Ficava onde hoje é a Manoel Borba.

Pág. 45

O cemitério dos estrangeiros em questão é o cemitério dos ingleses.

Pág. 47

O Lazareto de Santo Amaro era o local onde ficavam de quarentena os escravos recém-chegados da África.

Pág. 48

A revolução citada é a Revolução Pernambucana de 1817.

Pág. 53

A construção de pedra citada é onde fica a Cruz do Patrão.

Onde As Almas Esperam Sua Vez

Pág. 56

A frase citada por Assis era o grito de guerra dos amotinados da Setembrizada. “Fora os colunas! Fora o castigo de espada! Fora o brigadeiro! Fora os marinheiros! Viva o Sr. D. Pedro Segundo! Vivam os brasileiros!”

Pág. 62

O massacre citado na conversa entre Padre Alfredo e Adelaide, e que permeia toda a história, é conhecido como A Setembrizada. Tropas militares amotinadas em favor de D. Pedro II estavam fazendo arruaça na cidade e houve uma reação deixando um saldo de muitos mortos. Os cadáveres foram levados para as terras do Modengo, onde hoje fica a praça Chora Menino.

Pág. 68

A frase: “Tem cautela, Rego. Não passes do Mondego”, dita por Assis, é um fato histórico do local. Essa frase foi escrita em um muro em 1817 para avisar ao então governador de Pernambuco, Luís do Rego Barreto, que ele sofreria um atentado no Modengo.

Eu Levo Comigo Apenas o Que Mereço

Pág. 73

Os Lunas citados no início da história e o fato deles terem morado no Sobrado Estrela atrás de uma botija de ouro são verídicos.

Pág. 74

Na segunda metade do século 19, houve uma epidemia de cólera-morbo em Recife que durou 7 anos.

Fome

Pág. 88

O Doutor Dornela existiu de verdade. Era um grande médico, mas pelo fato de ser negro, era desprezado pelas pessoas da alta sociedade.

A Lua Cobra Seu Preço

Pág. 104

O bacharelzinho citado por Firmino foi um homem que morou no bairro do Poço da Panela. Devido a sua palidez, por conta de uma grave anemia, a população local dizia que ele era um lobisomem.

A mulher negra citada por Cícero também é uma antiga moradora do Poço da Panela, chamada de Josefina Minha Fé, e que contava ter sido vítima de um ataque de Lobisomem pelas ruas do bairro, certa vez.

Observação final:

A foto que ilustra a capa do livro é de um prédio ao lado do Burburinho. Os boêmios que passarem por lá podem dar uma olhada.

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Alguém chame um médico

Nas últimas semanas, Otávio estava ficando até mais tarde no consultório. Além do número de atendimentos ter aumentado consideravelmente, após ele conceder entrevistas a três jornais e ser capa de uma revista especializada, ele ainda estava preparando o material que apresentaria em um congresso em Barcelona.

Era o preço da fama. Ele já estava até pensando em contratar funcionários, parar com as consultas, e se dedicar exclusivamente às suas pesquisas.

Olhou para o relógio em forma de cachorro que ficava em cima do computador. Eram onze e meia da noite. Só então se lembrou que não avisara a esposa que não ia chegar a tempo para o jantar.

– Alô, querida. Sou eu.

– Eu sei – respondeu ela. E em seguida bocejou.

– Já estou saindo daqui – ele disse.

– Eu guardei lasanha pra você. Só precisa esquentar quando chegar.

– Obrigado, querida.

– De nada, doutor – respondeu ela, rindo – Tomou seu remédio?

– Tomei sim. Eu te amo.

– Vem logo.

Mentiras. Ele não iria para casa naquela hora. Sua amante o esperava num restaurante japonês do outro lado da cidade. Ele também não tinha tomado o remédio. Havia esquecido. O envelope continuava dentro da gaveta desde a manhã. Pílulas de nitroglicerina, para tratamento de angina.

Otávio ligou para o porteiro do prédio, mas ele não atendeu o interfone. Precisava que o porteiro desligasse o alarme da garagem para que ele pudesse sair. Ele era o único locatário que ainda continuava no prédio. Ligou mais duas vezes e nada. Então, arrumou sua pasta e foi embora.

A porta do elevador abriu quando chegou na garagem. Otávio não poderia sair do elevador, ou os sensores iriam fazer o alarme soar.

– Raimundo – gritou ele.

Ninguém respondeu. Ele decidiu sair assim mesmo. Assim que pôs os pés do lado de fora, Otávio abaixou a cabeça e fechou os olhos, esperando ouvir um barulho ensurdecedor. Ele já tinha ouvido aquele alarme e era realmente um som alto e desagradável.

Mas o alarme não disparou. Otávio ergueu a cabeça e olhou em todas as direções, ainda procurando o porteiro, e nada. Então, deu nos ombros.

Quando entrou no carro, tirou seu jaleco e o jogou, junto com a sua pasta, no banco de trás. Assim que pôs a chave na ignição, as portas de trás se abriram. Dois homens haviam entrado.

– Tenho uma arma apontada para você. Qualquer gracinha e suas tripas vão colorir o pára-brisa – disse o cara que estava atrás dele.

Otávio podia sentir o cano em suas costas. Era uma arma grande, pensou ele.

– Eu tenho dinheiro e celular – falou.

– Só dirija – disse o outro homem.

Otávio deu a partida e seguiu devagar até a rampa que dava acesso à rua. Lá, na subida, havia um terceiro homem. Um sujeito branco, alto e forte. Tinha os cabelos pretos, na altura do ombro. Raimundo estava caído ao lado dele. O homem fez sinal para que Otávio parasse o carro e, então, entrou e sentou-se no banco do carona.

– Pegue a avenida principal em direção ao subúrbio – disse o homem.

– Eu tenho dinheiro. Pode levar tudo – disse Otávio. Estava suando e tremendo.

Nenhum deles respondeu. Otávio pegou a principal, no sentido subúrbio. Dirigiu durante cinco minutos de total silêncio.

– Pegue o viaduto, doutor – disse o homem no banco de carona.

– Eu tenho dinheiro aqui. Já disse.

– Está me irritando, doutor – disse o homem com a arma, pressionando ainda mais o cano no banco do motorista.

O homem do carona acendeu um cigarro e mandou Otávio pegar o viaduto, pelo lado direito.

– Certo, doutor. Estamos chegando. Sendo assim, vou lhe deixar a par da situação. Tudo bem?

Otávio sentiu uma dor no peito e se lembrou que seu remédio continuava na gaveta do consultório. Ele respondeu a pergunta do homem, fazendo um sinal positivo com a cabeça.

– Um dos meus amigos foi baleado num assalto a um carro-forte, agora há pouco. Não posso levá-lo ao hospital. Você vai ter que operá-lo.

Otávio teria gritado se a dor não tivesse aumentado e feito ele gemer. Ele levou a mão ao peito.

– Não posso – disse ele, em voz baixa.

– Claro que pode. Abrimos a mala do seu carro antes de você chegar e vimos que seus equipamentos estão todos lá – falou um dos homens no banco de trás.

– Não é isso. Eu não sou médico, porra – enfim, conseguiu falar – Eu sou veterinário.

– Mas é disso mesmo que precisamos – disse o homem com a arma.

Chegaram a uma área onde havia alguns armazéns abandonados. Otávio desceu do carro, cambaleando. Um homem do banco do carona o segurou.

– Qual o problema, doutor?

– Meu remédio. Sofro do coração.

– White, vem cá.

O homem se aproximou. Só então Otávio notou que ele não carregava uma arma. Era um secador de cabelo.

– Pegue o carro e vá comprar os remédios do doutor. Ele não pode operar assim. Qual é o remédio?

– Não posso operar assim, nem de jeito nenhum. Sou veterinário, já disse.

– Qual o remédio, doutor? – perguntou de novo.

– Pílulas de nitroglicerina – respondeu ele, gemendo. A dor tinha aumentado.

O homem chamado White entrou no carro e partiu. Os outros dois levaram Otávio para dentro do armazém e o colocaram em uma cadeira. Ele folgou a gravata e desabotoou o primeiro botão da camisa.

– Tudo bem doutor. Meu nome é Blue e o do meu amigo é Blonde – disse o homem que estava no banco do carona.

– Isso são nomes mesmo? – perguntou Otávio, erguendo a sobrancelha.

Dentro do armazém havia uma porta que dava para os fundos. Alguns sons vinham de lá.

– Não são nomes verdadeiros. Você não pode saber nossos nomes verdadeiros. Por isso coloquei esses. Nunca viu Cães de Aluguel, doutor?

– Não.

– Eu também nunca vi – disse Blonde. – Mas gostei do meu nome.

– Me deixem ir. Não posso ajudar. Não posso operar seu amigo.

Os sons aumentaram. Otávio levantou-se.

– Isso foi um uivo? – perguntou ele, assustado.

De repente um som agudo cortou todo o galpão.

– Não doutor, isso agora foi um uivo – respondeu Blue. Ele e Blonde gargalharam. – Deixe-me apresentá-lo ao seu paciente.

Os homens arrastaram Otávio pelos braços. Ele tentou se debater, mas seu peito doía e ele achou que fazer esforço seria pior.

Blonde abriu a porta. Entraram em uma sala mal iluminada. Das seis lâmpadas, só duas funcionavam. Em um dos cantos, havia algumas sacolas de pano. O cheiro era insuportável para Otávio. Os outros não pareciam se incomodar. Nem com o odor, nem com os sons emitidos pelo lobo que estava amarrado numa mesa no centro da sala. Otávio se soltou e correu para fora do lugar, gritando. White havia acabado de chegar.

– Trouxe o remédio? – perguntou Blue, que vinha logo atrás de Otávio.

– Sim. Tinha uma farmácia aqui perto – respondeu White, lhe entregando o envelope com as pílulas e uma garrafa de água mineral.

Otávio estava acocorado no canto da parede. Chorava compulsivamente e apertava o peito com a mão direita. Blue lhe deu o remédio, mas ele recusou a água. Pôs a pílula embaixo da língua e enfim, relaxou. Então se sentou e esticou as pernas.

– O que é aquele bicho lá dentro? – perguntou ele.

– Pense nele como um cachorro grande – respondeu Blue. – Ele está ferido e precisa ser operado.

– Não vou chegar perto daquele monstro. Vocês não podem me obrigar. Nenhum de vocês tem armas, só um secador de cabelos.

– É. Não temos armas, mas se você não colaborar eu solto o nosso amigo que está lá naquela mesa e ele vai pegar você – O sorriso havia sumido do rosto de Blue.

– O que querem que eu faça? – perguntou Otávio.

– Tem uma bala alojada próximo ao coração dele. É só extraí-la.

Blonde se aproximou com a maleta de Otávio e lhe entregou. Ele a pôs no colo e respirou fundo. A dor já estava passando.

– Vamos lá – disse ele, e ergueu a mão para que Blue o ajudasse a se levantar.

A sala não era só mal iluminada, era muito suja também. Otávio teve que colocar sua maleta no chão imundo para retirar as ferramentas. Ele entregou o bisturi, a tesoura e a pinça para os homens e pediu para que eles passassem as chamas dos seus isqueiros nos objetos. Em seguida tirou um pacote de gaze e colocou no bolso.

– Vai ser sem anestesia, a não ser que vocês tenham alguma droga aí.

– Não temos. Vai assim mesmo.

O lobo se contorcia e girava para um lado e para o outro. Seu peito estava todo coberto de sangue. Os pelos cobriam o lugar exato do ferimento. Otávio pediu a tesoura a um dos homens, mas quando tocou no lobo, o animal tentou avançar nele.

– Segurem ele. Pelo amor de Deus.

Os três puxaram o lobo pelo pescoço e viraram a cabeça dele para o outro lado. White enrolou um grande pedaço de fita adesiva ao redor do seu focinho.

Blonde e Blue seguraram suas patas dianteiras, e só então Otávio conseguiu ver a ferida.

O animal, enfim, parou de se debater e Otávio cortou o pelo ensaguentado, do lado esquerdo do peito do lobo.

O sangue era escuro e cheirava mal e o ferimento não parava de sangrar. Otávio já tinha gasto mais de três metros de gaze para limpar o local. A pele por baixo da pelugem era muito branca.

– Pode meter o bisturi, doutor. Não sendo de prata, ele aguenta – gritou Blue

– Só não deixem ele me morder.

Otávio fez um corte de trinta centímetros de cima a baixo, passando o bisturi por cima da ferida. O lobo contraiu-se, mas não se debateu. Saía um pouco de fumaça de dentro do corte. O doutor afastou a carne com a mão esquerda e com a outra mão enfiou a pinça no buraco. Não foi difícil achar a bala, era ela que exalava a fumaça. O objeto queimava a carne do animal. Quando Otávio a expeliu, o lobo uivou mais uma vez e amoleceu o corpo, esticando as patas e deitando a cabeça na mesa.

Blode tomou a pinça da mão de Otávio e pegou a bala na ponta dos dedos.

– Eles sabiam que nós íamos roubar o carro-forte. Ou toda empresa de segurança usa bala de prata, agora? – perguntou ele.

– Depois discutimos isso. Temos que ir agora – disse White.

– Por que a pressa? – perguntou Blue, com um sorriso no rosto. – O doutor aqui fez um bom trabalho. Limpo e rápido.

– A polícia pode estar vindo para cá – falou White, coçando a cabeça – É que naquela hora, que eu fui buscar o remédio, eu assaltei a farmácia e um carro da polícia me perseguiu. Eles ainda podem estar me procurando.

A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Blue caminhou até White, como a sobrancelha esquerda erguida.

 – Acabamos de roubar um carro forte. Por que você não pagou a porra do remédio, ao invés de roubá-lo?

– Sei lá. Força do hábito, eu acho – respondeu White, com um sorriso amarelo, que se desfez logo em seguida, quando as sirenes começaram a soar.

Otávio estava sentado no chão, ainda tentando se limpar do sangue do lobo. Nesse instante ficou com medo que os homens entrassem em desespero e fizessem uma loucura como, por exemplo, fazê-lo de refém. Mas nenhum dos três mostrou nervosismo.

Blonde e White pegaram duas sacolas, cada um, e as prenderam pelas alças com seus dentes. Blue caminhou até a mesa e pôs o corpo de um homem em seus braços. Otávio olhou para ele espantado e confuso. De onde surgiu aquele homem e pra onde havia ido o lobo?

– Obrigado, doutor – disse Blue.

Além de ter sido muito rápido, Otávio teve medo, muito medo, e preferiu ficar a maior parte do tempo de olhos fechados. Mas ele viu, mesmo que por alguns segundo, os três homens se transformarem em lobos, iguais àquele que ele tinha operado minutos antes. Eles escalaram as paredes do armazém com suas garras e, em seguida, ganharam à noite arrombando o teto.

A polícia ainda estava lá fora, decidindo como entrar no local. Otávio colocou outra pílula embaixo da língua e deitou-se no chão sujo. Ficou pensando que história contaria a sua mulher. Pelo menos se ela perguntasse se ele tinha tomado o remédio, ele não precisaria mentir.

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#inferno

Ilustração de Danny Devine

 

“Veja bem, existe, claro, o prazer da possessão. É divertido fazer um corpo de contorcer de várias formas, falar coisas sujas, permear a mente do sujeito de pesadelos. Mas utilidade mesmo, isso tinha lá na Idade Média. Quem se apossa de uma pessoa atualmente faz isso puramente por nostalgia.

Nós evoluímos. Nos dias de hoje, estamos nas redes sociais. Chega de falar através de vozes na cabeça das pessoas. O sujeito vai ao médico, toma um remédio e para de ouvir a gente. No Facebook as pessoas aceitam as coisas mais fáceis… como é que se diz, mesmo? Elas “curtem”, é isso?”

Risos da platéia. O apresentador gordo tosse e toma um gole de água em sua caneca preta com detalhes dourados.

“Então… não é porque temos mais de dois mil anos que temos que ficar atrelados a velhos hábitos. Um dos nossos, que por motivos óbvios não direi o nome, se apossou de uma menina semana passada. Uma adolescente suburbana de Kiev que devia ter uns 15, sei lá, 16 anos. Claro que ele fez isso só por diversão, mas no final das contas terminou humilhado. A menina começou a cuspir carrapatos. Uma obra de arte, podem acreditar. Um feitiço muito difícil de se executar. Mas alguém atribui crédito ao pequeno espírito possuidor? Claro que não. Disseram que a menina era louca, e que havia mordido um cachorro de rua e, por isso, estava com a boca cheia de parasitas.”

Mais risos da platéia.

“O grande lance agora, não é ter seguidores de seitas satânicas e sim no Twitter. Cada RT que dão de alguma frase nossa, ela é lida e disseminada por milhares de pessoas de todo o Mundo.”

Mais gargalhadas do público.

“É sério! Uma mentira, quando repetida várias vezes, se torna verdade. É o Inferno direto no seu Iphone via wireless.”

O apresentador anuncia o fim da entrevista, o público lamenta e o entrevistado agradece.

Enquanto isso #demonio entra nos TTs.

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Eu e a coruja

Parque dos Falcões (Itabaiana/SE)

 

Ilustração by @julieet21

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